sábado, 18 de outubro de 2014

Será Que?

Daniel Radcliffe vem tentando provar que seu talento como ator vai muito além de Harry Potter desde o fim da saga. A partir de então, vem aceitando papéis bem diferentes do jovem bruxo: já protagonizou o terror “A Mulher de Preto”, a série “Diário de um Jovem Médico”, interpretou o poeta Allen Ginsberg em “Versos de um Crime”, e em breve será um chifrudo peculiar no longa “O Pacto”. No atual “Será Que?”, dirigido pelo canadense Michael Dowse (“Os Brutamontes” e “Uma Noite Mais Que Louca”), Radcliffe se joga pela primeira vez no mundo das comédias românticas, fazendo par com a atriz Zoe Kazan, que já teve essa experiência anteriormente em “Ruby Sparks – A Namorada Perfeita” (2012) e “Tudo Acontece em Nova York” (2011).


Em “What If” (no original), Wallace (Radcliffe) e Chantry (Kazan) são dois jovens na faixa dos 20 anos que se conhecem por acaso numa festa e sentem uma sintonia instantânea. O grande problema é que ela já está comprometida com Ben (Rafe Spall) e não pretende terminar o namoro. Ele, que depois de 1 ano na fossa após o término de um relacionamento, finalmente resolve dar a volta por cima, acaba na friendzone de Chantry, reprimindo seus sentimentos para continuar perto dela, mesmo que seja apenas como amigo.


Zoe Kazan rouba a cena como Chantry, enquanto o desempenho de Daniel Radcliffe alterna entre bom e mediano durante toda a trama. Quem também merece destaque é o casal amigo, interpretado por Adam Driver, da série “Girls”, e Mackenzie Davis (“Namoro ou Liberdade?”), que compõem um improvável, divertido e fogoso par contrastando com o romance enrustido dos amigos que parece nunca deslanchar por insegurança e indecisão de ambos.


Com um roteiro previsível de Elan Mastai, “Será Que?” é uma comédia romântica que funciona por investir num casal protagonista fofo e carismático que se descobre aos poucos ao longo da trama, pelo qual o público (especialmente o feminino) adora torcer. A relação entre os dois é muito descontraída, repletas de piadas prontas e ironias constantes (algumas vezes forçadas), e é possível perceber de cara a química entre eles, o que lembra em parte o início do romance de Gus e Hazel no recente “A Culpa é das Estrelas”.


Baseado na peça canadense “Toothpaste and Cigars”, “Será Que?” é mais um representante do gênero e possui similaridades com os conhecidos longas “Harry e Sally” (1989), “Amor ou amizade” (2000), “O melhor amigo da noiva” (2008) e "(500) Dias Com Ela" (2009). Não é um filme original, mas cumpre muito bem o seu papel de entreter sem gerar maiores expectativas.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Será Que? (What If)

Canadá - 2012. 102 minutos.

Direção: Michael Dowse

Com: Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Adam Driver, Rafe Spall, Mackenzie Davis e Megan Park.


Nota: 3

terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Bela e a Fera

Quando Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve escreveu “A Bela e a Fera” em 1940, provavelmente não pensou que sua história se tornaria tão famosa e que ganharia tantas versões – literárias, televisivas, teatrais e cinematográficas – em todo o mundo. No cinema, teve sua primeira representação pelas mãos de Jean Cocteau e René Clément em 1946, mas foi a animação musical da Disney (1991), a primeira a concorrer ao Oscar de Melhor Filme, que internacionalizou e tornou o conto de fadas francês um clássico inesquecível. De volta às origens, o mais recente remake homônimo de “A Bela e a Fera” estreia este mês nos cinemas brasileiros num projeto ambicioso do diretor Christophe Gans (“O Pacto dos Lobos”) com muita magia, efeitos especiais e aventura.


Numa mistura da versão de Cocteau com a da Disney, “La Belle et la Bête” (no original) se passa no ano de 1810. Um comerciante (André Dussollier), pai de três filhos e três filhas, perde toda a fortuna num naufrágio que destrói suas três embarcações e se muda para o campo a fim de evitar a humilhação. Somente a caçula Bela (Léa Seydoux) aprecia a mudança de ares, e a inquietação toma conta de seus irmãos. Quando seu pai arranca uma rosa do jardim de um palácio misterioso, a Fera (Vincent Cassel) surge e o condena à morte pelo roubo em sua propriedade. Bela, se sentindo culpada pelo que aconteceu, vai até o castelo para salvar a vida do pai e passa a viver lá com a Fera, com quem é obrigada a jantar diariamente. Aos poucos, ela descobre o passado do monstro e começa a se envolver com ele, que vê na moça uma grande possibilidade de romper a sua maldição.


Com uma fotografia belíssima de cores vibrantes, ótimos efeitos especiais na maior parte do tempo e figurinos luxuosos impecáveis, “A Bela e a Fera” é o tipo de produção que se vê muito pouco na França, não só pelo alto orçamento exigido como por ser bastante hollywoodiano. Apesar de Gans negar influência de produções americanas do gênero, seu longa não deixa nada a desejar em relação às mesmas, como “Branca de Neve e o Caçador” e “A Garota da Capa Vermelha”, e, sim, possui semelhanças, principalmente no que se refere ao excesso na utilização de efeitos especiais, que soam artificiais em cenas específicas. Não vemos em momento algum da narrativa a influência de seu ídolo, Hayao Miyazaki, que Gans afirma haver.


“A Bela e a Fera” de Gans mescla romance fantástico, aventura e mitologia num filme francês bastante americano, algo raro no cinema do país de Napoleão, e acaba deixando o espectador perdido quanto ao gênero de filme a que está assistindo. Se as sequências que mostram o passado de Fera como príncipe através dos sonhos de Bela são de grande beleza e com efeitos interessantes, elas também apresentam elementos mitológicos que parecem perdidos em meio a toda a trama, ao mesmo tempo em que há uma boa reconstituição de época. Além disso, é muito pouca a interação de Bela com as criaturinhas que ela diz serem suas melhores amigas no castelo e o romance com Fera fica em segundo plano no roteiro de Gans, que deseja mostrar o quanto sua película é visualmente suntuosa em detrimento da coerência da história. Talvez este seja um dos motivos pelos quais os atores não parecem confortáveis em seus papéis e sua atuação não tenha nem metade do brilho empregado em seus figurinos e cenários.


Altos e baixos compõem “A Bela e a Fera” de Gans, o que faz dele um filme mediano. Devido à combinação inusitada de temas, é difícil afirmar que se destina totalmente ao público infantil, que poderá se sentir confuso e entediado em diversos momentos onde há diálogos mais longos que o necessário e visível perda de ritmo e de sentido na história. Aliás, o mesmo pode ocorrer com os adultos. A combinação de elementos do cinema americano com elementos do cinema francês não deu muito certo desta vez. Entretanto, não se pode negar que a iniciativa de Gans em investir num gênero pouco recorrente no cinema francês é louvável, e por isso merece créditos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Bela e a Fera (La Belle et la Bête)

França - 2014. 112 minutos.

Direção: Christophe Gans

Com: Vincent Cassel, Léa Seydoux e André Dussolier.


Nota: 3

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