quinta-feira, 19 de junho de 2014

Vic+Flo Viram Um Urso

Vencedor do prêmio Alfred Bauer no Festival de Berlim de 2013, o mais recente longa-metragem do canadense Denis Côté, pouco conhecido no Brasil, é uma grata surpresa. Poderia ser mais, porém não deixa de ser interessante. Assim como Curling (2010), também do diretor, Vic+Flo Viram Um Urso é um filme contemplativo e possui duas personagens que se complementam com seus desejos opostos – enquanto uma quer viver reclusa da civilização, a outra anseia intensamente por uma vida de liberdade e de contato com novas pessoas. A trama gira em torno da relação de Victoria Champagne (Pierrette Robitaille, de Mambo Italiano) e Florence Richemont (Romane Bohringer, de Eclipse de uma Paixão e O Baile das Atrizes), duas mulheres que se conheceram e se tornaram parceiras na prisão. Quando Victoria deixa a prisão e vai morar na casa de um tio inválido no meio da floresta, ela passa a ser constantemente monitorada pelo agente de condicional Guillaume (Marc-André Grondin, C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor e O Homem que Ri) e, pouco tempo depois, a dividir o teto com Florence, que acabou de cumprir a sua pena. Entre momentos de tranquilidade e inquietudes, eis que o passado de Flo surge para aterrorizá-la e para abalar sua relação com Vic. É na personificação desse passado, representada caricaturalmente por Marie Brassard (Les Grandes Chaleurs e Sinais Vitais) como uma vilã cínica e vingativa, que se encontra o agito para o então plácido cotidiano de Vic e Flo.


Flo quer se sentir livre e isso começa a estremecer sua relação com Vic, que deixa claro que tem medo da solidão e a quer sempre ao seu lado. O que Vic pensou ser uma grande chance de refazer sua vida aos 61 anos com sua companheira, acabou sendo um fim para a sua paz, já que Flo, por ser bem mais jovem, gosta de viver entre pessoas e quer ter outros parceiros, ao contrário de Vic, que só deseja uma vida tranquila e isolada na cabana no meio da floresta ao lado de sua amada. Com esta delicada relação entre as duas, não se esquecendo da presença constante de Guillaume para vigiá-las, o filme de Côté busca discutir que nem sempre estar em liberdade significa, de fato, ser livre, ainda mais quando você já esteve na cadeia e precisa recuperar a sua vida e/ou tem pendências perigosas anteriores ao encarceramento. Ser livre sem ter perspectivas na vida pode ser mais excruciante que estar preso. A pergunta que Flo faz para Vic em dado momento da película – "Se você pudesse escolher, seria água ou vento?" – faz todo o sentido quando analisada deste ângulo.


Ao utilizar cortes abruptos e uma câmera sempre atenta, Côté mantém o foco nas expressões das personagens, para que o público possa compartilhar de seus sentimentos. Quase sem trilha sonora e com silêncios que gritam, Vic+Flo Viram Um Urso nos faz – positivamente – cair na armadilha de seu curioso título, nos apresentando uma singular metáfora sobre acaso e destino, seguida de belas e expressivas sequências finais repletas de subjetividade. Um verdadeiro retrato de fraquezas e sentimentos humanos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Vic+Flo Viram Um Urso (Vic+Flo Ont Vu Un Ours)

Canadá - 2013. 90 minutos.

Direção: Denis Côté

Com: Pierrette Robitaille, Romane Bohringer, Marc-André Grondin e Marie Brassard.


Nota: 3

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Amor Sem Fim

Uma menina rica, um rapaz pobre. Pais que proíbem o amor adolescente pela diferença social e outros motivos pessoais. Jovens que vivem ardentemente o seu amor secreto, às vezes acobertados por amigos. Pais furiosos ao descobrir, mas que acabam cedendo no final ao perceberam que sua proibição será em vão. Depois de muita insistência, o amor vence. São inúmeros os filmes românticos que utilizam esta fórmula, que, pelo imaginário e pela possível identificação do público-alvo (adolescentes), continua dando certo. Seu mais recente representante é Amor Sem Fim, remake do clássico de 1981 de Franco Zeffirelli, inspirado no livro homônimo de Scott Spencer, desta vez com direção de Shana Feste (Em Busca de Uma Nova Chance e Onde o Amor Está).


Alex Pettyfer (Magic Mike) e Gabriella Wilde (Os Três Mosqueteiros) interpretam os personagens que antes foram de Martin Hewitt e Brooke Shields na versão original de Zeffirelli. David Elliot e Jade Butterfield são dois adolescentes apaixonados que vão lutar até o fim para ficarem juntos, mesmo que o dominador pai de Jade (Bruce Greenwood, de Além da Escuridão - Star Trek e Não Estou Lá) não concorde com o namoro e faça de tudo para impedi-lo. Por outro lado, sua mãe Anne (Joely Richardson, de O Patriota e Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres), torce muito pelo romance e pela felicidade da filha, assim como seu irmão Keith (Rhys Wakefield, de Uma Noite de Crime).


David demorou quatro anos para falar com Jade, mas a paixão arrebatadora que surgiu no dia em que aconteceu o primeiro diálogo entre os dois compensou todo este tempo. A menina que parecia pura e inocente, voltada apenas para os estudos, mostrou-se bastante receptiva ao amor e a tudo o que o acompanha, com um apetite voraz para viver tudo o que fora impedida de viver até então. Tanto David quanto Jade são personagens com estereótipos irreais para o mundo de hoje, assim como Hugh, o pai de Jade, porém nele há uma ótima representação patológica do trauma, que intensifica ainda mais a sua índole agressiva e controladora. É em Anne que se encontra a personagem mais real de todo o filme – uma mulher infeliz no casamento, com um marido indiferente e adúltero, que tenta sempre manter a relação familiar harmoniosa.


Como no longa Diário de uma Paixão (Nick Cassavetes, 2004), Endless Love (no original) apresenta um amor juvenil de verão que evolui para algo mais sério e duradouro, e vence todos os obstáculos, inclusive o do tempo, provando que a velha máxima de que “o amor supera tudo” é verdadeira; ao menos em romances fictícios. Um filme mediano com cara de Sessão da Tarde com a única finalidade de entreter durante seus 104 minutos. Não coincidentemente, Amor Sem Fim estreia no Dia dos Namorados. Uma boa pedida para jovens casais apaixonados, se o jogo da Copa permitir.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Amor Sem Fim (Endless Love)

EUA - 2014. 104 minutos.

Direção: Shana Feste

Com: Alex Pettyfer, Gabriella Wilde, Bruce Greenwood, Joely Richardson, Robert Patrick e Rhys Wakefield.


Nota: 3

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Oldboy - Dias de Vingança

Americanos e sua cansativa mania de fazer remakes, sempre achando que sua versão será melhor. Sim, porque se achassem que não conseguiriam superar o original, não o fariam. Não satisfeitos em fazer remakes de seus próprios filmes, eles descobriram as maravilhas do cinema além-Hollywood e resolveram começar a fazer remakes de filmes europeus e asiáticos – entre os quis podemos destacar os suecos Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011) de David Fincher e Deixa Ela Entrar (2008), e os japoneses O Grito (2004) e O Chamado (2002) –, de gêneros diversos, sendo alguns verdadeiras obras primas. Acontece que obras primas o são justamente por serem únicas e especiais, não sendo necessárias sequer continuações, que dirá um remake americano. É o caso de Oldboy (Oldeuboi, 2003), obra prima do diretor sul-coreano Chan-wook Park, que faz parte da Trilogia da Vingança junto com os excelentes Lady Vingança (2005) e Mr. Vingança (2002).


Com roteiro de Mark Protosevich (Eu Sou a Lenda e Thor) e direção de Spike Lee (Malcolm X e Milagre em St. Anna), Oldboy - Dias de Vingança elimina a genialidade do original Oldeuboi e cria uma nova história utilizando alguns pontos do mesmo, porém sob a ótica americana de violência gratuita, e tratando o incesto e o sadismo praticamente como piada. Toda a sutileza oriental que torna tanto a violência quanto os outros temas tão engenhosos na obra de Park foi cortada, já que houve uma transição total de uma cultura do misticismo, da filosofia e da disciplina para uma cultura consumista, agressiva e competitiva, com inserção de tecnologias e product placements (Apple, Google, Shazam, entre outras marcas) durante toda a projeção. Comparando-se os dois filmes, o pior corte feito por Lee foi o da hipnose, que era a base de todo o mistério por trás do encarceramento do protagonista e fez com que a história perdesse muito o sentido, e a pior mudança foi a solução de tal mistério, o motivo por trás de tudo, além do final, que passou de intenso e bizarro a masoquista, sem graça e clichê. Com isso, Spike Lee procurou amenizar a história original para que fosse mais palatável ao público americano, que dificilmente assistiria a um filme sul-coreano.


Na versão de Lee, Oh Dae-Su (Min-sik Choi) é Joe Douchett (Josh Brolin, de Onde os Fracos Não Têm Vez e Refém da Paixão), um homem grosseiro, bêbado e desagradável que não se importa com ninguém além dele próprio. Depois de uma noite regada a álcool, ele é sequestrado e mantido em cativeiro por 20 anos sem qualquer explicação, e solto da mesma maneira. Em liberdade, ele deseja vingança e inicia uma obsessiva busca por quem planejou a sua prisão torturante e por respostas, mas só encontra cada vez mais perguntas. Logo que começa sua busca, Joe conhece a bela e jovem assistente social Marie (Elizabeth Olsen, de Martha Marcy May Marlene e Poder Paranormal), com quem acaba se envolvendo, um antigo amigo que o ajuda (Michael Imperioli, em sua quarta parceria com Lee), e, mais tarde, um misterioso homem (Sharlto Copley, de Elysium e do super recente Malévola) que joga psicologicamente com ele e parece ser a chave do enigma que tenta desvendar há 20 anos.


Ao contrário da obra original, esta delimita bem os papéis de mocinhos e vilões, e procura mostrar como as pessoas podem se redimir através de Joe, que se transforma num homem melhor durante o cárcere por sua filha, e Marie, que de garota problemática se tornou uma cidadã que ajuda quem precisa. O próprio vilão, Adrien Pryce, é uma caricatura – afeminado, com sotaque britânico e uma enorme cicatriz –, não lembrando em nada o papel antes desempenhado por Woo-jin Lee. Apesar de tudo, Brolin e Olsen encarnam bem seus personagens, ao contrário de Imperioli, patético na pele do vilão, e de Samuel L. Jackson (de Pulp Fiction - Tempo de Violência e Django Livre), que, mais uma vez, se repete na atuação e fica completamente apagado.

Ademais, a sequência épica do embate entre o protagonista e dezenas de homens no prédio foi transformada numa simples cena violenta de luta mal feita de filmes de artes marciais americanos, assim como o momento memorável de tortura dentária com um martelo foi convertida em algo bastante inferior. Além disso, a excelente frase da parede do quarto de confinamento na versão de Park foi substituída por um pôster cínico de quarto de hotel por Lee. Há, ainda, um mistério no ar: como depois de 20 anos preso num quarto, sem contato nenhum com o mundo exterior, Joe consegue mexer sem dificuldades num iPhone e pesquisar no Google?


Vítima de um roteiro frágil e superficial e de uma direção indecisa e negligente, Oldboy - Dias de Vingança em nada lembra a criatividade, a força e a genialidade do autêntico sul-coreano. Somente na transição entre as culturas oriental e ocidental, inúmeras qualidades essenciais do filme de Chan-wook Park foram perdidas e outras, deveras enfraquecidas. Desse modo, Spike Lee conseguiu apenas realizar uma imitação barata de Oldeuboi, totalmente desnecessária. Se você, como eu que vos escrevo, tiver o longa original entre seus filmes favoritos, o conselho é de que não vejam este remake, a não ser que queiram sair indignados da sala do cinema. No entanto, se você ainda não teve o prazer de assistir à obra prima de Park, pode ir sem medo conferir a versão de Lee que com certeza irá te instigar a assistir à incrível película original.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Oldboy - Dias de Vingança (Oldboy)

EUA - 2013. 104 minutos.

Direção: Spike Lee

Com: Josh Brolin, Elizabeth Olsen, Sharlto Copley, Samuel L. Jackson e Michael Imperioli.


Nota: 2

quinta-feira, 5 de junho de 2014

A Culpa é das Estrelas

Paralelamente a tantos lançamentos cinematográficos baseados em séries best sellers de distopias adolescentes (vide Jogos Vorazes, Os Instrumentos Mortais - Cidade dos Ossos, Dezesseis Luas, Divergente e os que ainda serão lançados Fallen e The Maze Runner) nos últimos anos, eis que o gênero drama, com histórias mais realistas sobre jovens com doenças terminais, também vem se destacando em ambos os meios. É o caso de A Culpa é das Estrelas, novo longa-metragem do diretor Josh Boone (de Ligados pelo Amor, 2012) baseado no romance homônimo de John Green, que obteve estrondoso sucesso mundial entre os jovens. Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) é uma adolescente com câncer terminal, que teve sua vida prolongada por mais alguns anos devido a uma droga experimental que diminuiu o seu tumor. Depois de esbarrar com um charmoso garoto no Grupo de Apoio a Crianças com Câncer, Augustus Waters (Ansel Elgort), a vida dos dois toma um rumo diferente e um passa a ser o porto seguro do outro.


Enquanto Hazel está em constante tratamento há anos, Gus já passou dessa fase e está curado. Como na maioria das histórias de amor, especialmente as adolescentes, a simpatia e a sintonia entre os dois são imediatas e logo percebidas pelo espectador. Hazel e Gus são o que podemos chamar de casal fofo, mas não meloso, como é o caso do casal formado por Isaac (Nat Wolff, na segunda parceria com Boone), melhor amigo de Gus, e Monica (Emily Peachey). A relação de Hazel e Gus se assemelha muito à de Annabel (Mia Wasikowska, de Alice no País das Maravilhas e Segredos de Sangue) e Enoch (Henry Hopper) no longa Inquietos (2011), de Gus Van Sant, do mesmo modo que as duas protagonistas têm atitudes parecidas perante a doença, a vida e a morte. Já Enoch lembra o personagem Adam, vivido por Jeremy Irvine (de Cavalo de Guerra e Grandes Esperanças), no britânico (e com o título pessimamente traduzido para o português) Agora é Para Sempre (Now Is Good, 2012), de Ol Parker, pelo sofrimento e dedicação à amada em seu pouco tempo de vida – nesse caso, Tessa, interpretada por Dakota Fanning (de O Amigo Oculto e The Runaways - Garotas do Rock).


Com diferentes metáforas sobre amor, vida e morte, as três películas possuem alguns pontos em comum, como a personalidade das três meninas protagonistas e os citados anteriormente. No entanto, A Culpa é das Estrelas se destaca entre as outras duas pela reviravolta no enredo envolvendo Gus, que dá outra perspectiva à história e sensibiliza ainda mais o público. A química já existente entre Shailene Woodley e Ansel Elgort (que recentemente interpretaram irmãos em Divergente), em conjunto com uma atuação longe de ser excelente, mas convincente, com certeza contribui muito para tal. Willem Dafoe (de Homem-Aranha e Anticristo), apesar de seu pequeno papel no filme como Peter Van Houten, o escritor em crise do livro favorito de Hazel “Uma Aflição Imperial”, e Laura Dern, musa de David Lynch que interpreta a mãe de Hazel, também são importantes para o desenrolar da trama.


Há quem não acredite no significado das cores, mas não parece ser o caso de Boone, já que a cor mais fria entre as cores frias é tão recorrente durante a trama. Com algumas mudanças entre os tons, azul é considerada a cor da tranquilidade, da serenidade, do intelecto, da eternidade e também da depressão, além de ser associada à saúde. Não à toa, desde detalhes no tênis de Gus, passando pelas roupas de personagens diversas e partes dos cenários, até a parede do quarto com pôsteres, a mochila com oxigênio e as unhas de Hazel, a cor azul está presente. Azul é, inclusive, a cor da capa do livro de John Green, que participou ativamente das gravações do filme e se enturmou bastante com os atores.


Embora tenha havido cortes em partes mais fortes do livro e certa aceleração nos fatos, como é comum ocorrer em adaptações, The Fault in Our Stars (no original) vai agradar bastante os fãs literários e, claro, o público que for ao cinema. A dupla de roteiristas Michael H. Weber e Scott Neustadter (de (500) Dias com Ela, The Spectacular Now – também protagonizado por Woodley – e responsável pela nova adaptação de outro livro de John Green, "Cidades de Papel") conseguiu resumir bem a história de Hazel e Gus nos 125 minutos de fita. A Culpa é das Estrelas é um melodrama e possui clichês de gênero, mas emociona, surpreende com o plot twist inexistente em obras símiles e é passível de causar identificação tanto pelo romance quanto pelo drama, fazendo com que haja maior envolvimento do espectador com a trama. Sim, alguns infinitos são maiores que outros.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars)

EUA - 2014. 125 minutos.

Direção: Josh Boone

Com: Ansel Elgort, Shailene Woodley, Sam Trammell, Nat Wolff, Emily Peachey, Laura Dern, Willem Dafoe, Lotte Verbeek e David Whalen.


Nota: 4

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...