segunda-feira, 26 de maio de 2014

Jackie

Filmes sobre o universo LGBT têm sido cada vez mais recorrentes no cinema em todo o mundo. Ano passado, houve uma explosão de filmes com a temática, como Azul é a Cor Mais Quente, Flores Raras, Além da Fronteira, Um Estranho no Lago e Tatuagem. Este ano, o destaque ficou com Praia do Futuro, que está causando polêmica devido a atitudes preconceituosas por parte de alguns cinemas e de uma parcela do público. Entretanto, o que poucas películas discutem, ainda, é a questão da união homo-afetiva e da criação de uma família. Em 2010, conhecemos a história de dois irmãos (interpretados por Mia Wasikowska e Josh Hutcherson) criados por duas mães homossexuais (vividas por Julianne Moore e Annette Bening) que foram fertilizadas pelo mesmo doador de sêmen (Mark Ruffalo), que passa a ser procurado pelos filhos, no longa Minhas Mães e Meu Pai, de Lisa Cholodenko.


Em Jackie, nova película da diretora Antoinette Beumer (de Loft, 2010), as irmãs gêmeas Sofie (Carice van Houten, a Melisandre de Game of Thrones) e Daan (Jelka van Houten, a Sabine da série Fresh Meat), filhas de um casal gay, se veem obrigadas a deixar a Holanda e ir até os Estados Unidos atrás de sua mãe biológica, até então desconhecida, que está com um problema de saúde. Como na maioria dos filmes com premissas similares, as duas irmãs possuem personalidades bem diferentes e uma é muito mais receptiva a conhecer a mãe, que serviu de barriga de aluguel para seus pais, do que a outra. Sofie é uma mulher prática, workaholic e solteira, enquanto Daan é uma mulher gentil, insegura e presa em um casamento infeliz. Já Jackie, a mãe (vivida por Holly Hunter), é quase uma mulher das cavernas, um verdadeiro bicho do mato – é grosseira, quase não fala, não tem modos nem vaidade e vive em constante modo de defesa com um rifle em punho. A partir do momento do primeiro encontro entre as duas irmãs e sua mãe biológica, já é possível prever que a evolução do enredo será repleta de clichês e que estas três mulheres se ajudarão mutuamente a superarem seus medos e inseguranças durante sua aventura no deserto do Novo México.


Com algumas leves referências do clássico Thelma & Louise (1991), Jackie é um road movie sobre família, auto-conhecimento, criação de novos laços e fortalecimento de outros já existentes, apego e desapego (do trabalho, no caso de Sofie, e do marido repressor, no caso de Daan), amor e superação. Embora os pais gays das irmãs apareçam pouco, as cenas de que participam não deixam de ser interessantes, e sua escolha por uma barriga de aluguel é a base para toda a história. Beumer, apesar de ter feito um longa bastante comum com alguns problemas técnicos, conseguiu desenvolver uma trama simples de forma leve e agradável e ainda abordar, ainda que em menor escala, um assunto similar ao de Minhas Mães e Meu Pai. É um filme despretensioso que entretém.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Jackie (Idem)

Holanda / EUA - 2012. 100 minutos.

Direção: Antoinette Beumer

Com: Carice van Houten, Jelka van Houten e Holly Hunter.


Nota: 3

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Homem Duplicado

Denis Villeneuve é um cineasta movido a enigmas, que assumidamente gosta de se arriscar em suas produções. Seu filme mais conhecido e aclamado, Incêndios (2010), uma adaptação da peça de Wajdi Mouawad, apresenta uma complexa trama sobre a busca de um irmão e uma irmã pelo pesado passado de sua mãe. Em seu primeiro longa em inglês Os Suspeitos, que marcou sua estreia em Hollywood em 2013, o ponto central é também uma busca, mas de um pai que recorre até o último recurso para encontrar a sua filha que desapareceu. Em seu mais recente filme, O Homem Duplicado, baseado no livro homônimo de José Saramago, a história, mais uma vez, gira em torno de uma busca, porém dessa vez por si próprio, por sua identidade perdida. Enquanto o primeiro é prioritariamente um drama familiar e de guerra e o segundo é um suspense dramático policial, o último se mostra um thriller cheio de mistérios que, à primeira vista, são difíceis de serem resolvidos, mas que basta prestar atenção aos detalhes para facilmente solucioná-los. É importante ressaltar que o filme não está na ordem cronológica dos acontecimentos e que foi delineado para ser um quebra-cabeças, um enigma que deve ser desvendado pelo espectador através das pistas dadas durante toda a projeção. As cenas iniciais são essenciais para descobrir os segredos do enredo, logo a atenção para elas deve ser redobrada.


O filme nos apresenta Adam Bell (interpretado por Jake Gyllenhaal, que participou antes de Os Suspeitos), um pacato professor de história desiludido com a vida, que descobre a existência de um homem igual a ele assistindo a um filme por acaso. Ele fica obcecado em encontrar o seu sósia e o caos se instala em sua vida. Anthony Claire, sob o nome artístico de Daniel Saint Claire, também vivido por Gyllenhaal, é a assustadora cópia andante de Adam. Com uma única e mínima diferença física entre eles, por assim dizer – o modo como cada um arruma o cabelo –, Adam e Anthony não poderiam ser mais díspares. Apesar disto, a namorada do primeiro (Mélanie Laurent, de Bastardos Inglórios) e a esposa grávida do segundo (Sarah Gadon, de Cosmópolis) são bastante parecidas fisicamente, apesar de possuírem temperamentos distintos.

Com um clima bastante lynchiano, O Homem Duplicado possui diversos aspectos em comum com obras como Cidade dos Sonhos (consequentemente também Estrada Perdida) e Império dos Sonhos. A direção de Villeneuve versa com o estilo do polêmico David Lynch, transformando a história de Saramago numa película que permite diferentes interpretações e a criação de diferentes teorias por parte do espectador; e é isso que a torna tão interessante. Personagens ditos do outro mundo por Lynch, aqueles que aparecem rapidamente durante a trama, também funcionam aqui como alertas para o protagonista (provocando alguma mudança em sua vida) e pistas para quem assiste. A simbologia da chave aqui presente é a mesma que em Cidade dos Sonhos, e Danny Boyle a expressa muito bem em seu longa Em Transe (2013) através de uma frase dita pela personagem de Rosario Dawson: “Uma lembrança aprisionada libera energia para romper a fechadura”.


Por outro lado, a simbologia principal do filme de Villeneuve vem de um animal peculiar: a aranha. Sendo a responsável por tecer a realidade para algumas culturas e por tecer a aparência ilusória dessa mesma realidade para outras, a introdução da aranha como elemento transitório em Enemy (no original) não poderia fazer mais sentido. A aranha representa, neste caso, para Villeneuve o que as cores azul e vermelho representam para LynchAlém disso, a aranha também simboliza a arrogância castigada pelos deuses na Grécia e nas culturas do Médio Oriente e do Mediterrâneo e possui obsessão pelo centro (como pode ser vista em sua teia), que absorve grande introspecção e representa o ser narcisista para a psicanálise. Na ótima cena do acidente de carro, há um close na janela quebrada que, não coincidentemente, é em forma de teia de aranha.



Nenhum componente está presente no longa à toa, dos menores detalhes ao que parece óbvio ou irrelevante. Em uma das aulas de Adam, há uma citação de Hegel que diz que os maiores eventos do mundo acontecem duas vezes, e uma adição à mesma feita por Karl Max, que afirma que a primeira é uma tragédia e a segunda é uma farsa. Outra coisa citada por Adam em suas aulas é a repetição de padrões, além do quadro negro, cujos conteúdos escritos são o caminho para desvendar o enigma proposto por Villeneuve, com certas mudanças da primeira para a segunda cena em que Adam leciona. Há, também, detalhes marcantes nas duas cenas da locadora – a primeira, quando Adam aluga o DVD que muda sua vida, tem como música ambiente “The Cheater”, de Bob Kuban & The In-Men, que fala sobre um homem infiel que não respeita as mulheres comprometidas e as trata mal após conseguir o que quer; e a segunda, quando ele vai procurar outros dois filmes em que Anthony atuou, o cartaz do filme Attack of the 50 ft. Woman (A Mulher de 15 Metros, em português), que conta a história de uma mulher traída que fica gigante e quer se vingar do marido infiel, está pendurado ao lado do balcão. A cena em que Adam visita sua mãe, numa participação especial de Isabella Rossellini (que teve um caso amoroso com David Lynch, que fez sua carreira decolar em 1986 com a participação em Veludo Azul), também é fundamental para o entendimento do que está acontecendo com a mente confusa do protagonista.


Para instaurar um clima de mistério, Villeneuve escolheu dar um tom amarelado à fotografia, que lembra a de Clube da Luta (1999), de David Fincher (com quem Gyllenhaal já trabalhou em 2007, em Zodíaco), outro longa que serviu de inspiração para Enemy. Além da frase memorável sobre as regras do Clube da Luta cair como uma luva para um seleto clube erótico secreto que nos é apresentado logo no início do filme e lembrado no final, tanto Adam quanto o personagem de Edward Norton possuem uma dualidade, um conflito psicológico de identidade e sofrem de tensão paranoica.

Por fim, Denis Villeneuve nos presenteia com uma obra surrealista repleta de mistérios, com interessantes discussões metafísicas, onde tudo está interligado no roteiro do espanhol Javier Gullón. “O caos é uma ordem por decifrar”. A própria frase introdutória de O Homem Duplicado já avisa ao espectador que ele terá pela frente um mistério caótico para solucionar. Então, se você gosta de filmes fáceis e procura por respostas, escolha outro filme, pois este - assim como Donnie Darko (Richard Kelly, 2001), também protagonizado por Jake Gyllenhaal, e Sr. Ninguém (Jaco Van Dormael, 2009) – somente te dará perguntas.


O Homem Duplicado (Enemy)

Canadá / Espanha - 2013. 90 minutos.

Direção: Denis Villeneuve

Com: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon e Isabella Rossellini.


Nota: 4

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Uma Juíza sem Juízo

Partindo da premissa de uma relação deveras improvável, Uma Juíza sem Juízo apresenta a evolução de Albert Dupontel à frente da direção e do roteiro, tanto que foi ganhador do prêmio César 2014 de Melhor Roteiro Original e concorreu também a Melhor Diretor e Melhor Ator. Com claras inspirações nas obras de Jean-Pierre Jeunet, em especial Eterno Amor, em que interpretou o papel de Célestin Poux em 2004, o quinto longa-metragem de Dupontel apresenta marcas registradas de Jeunet, como a fotografia amarelada, o humor infantil em personagens caricatos e a inserção de cenas dentro de outras cenas nos cantos da tela (mostrando um fato passado ou um sofrimento por antecipação de algo que pode acontecer na vida de alguma personagem no futuro), diferenciando-se pelo acréscimo de uma pequena dose de violência física, com toques de sadismo e psicopatia temperados com humor ácido. Em seu quarto filme, O Filho da Mãe (2009), já era possível perceber certas influências de Jeunet na direção de Dupontel, porém é em seu presente trabalho que conseguimos observar mais nitidamente a utilização direta de referências, já citadas anteriormente.


Solteira convicta e sem filhos, Ariane Felder (interpretada maravilhosamente por Sandrine Kiberlain, que levou para casa o prêmio César 2014 de Melhor pelo papel) é uma jovem juíza conhecida por sua seriedade e rigidez. O que ela jamais imaginaria é que engravidaria sem lembrar como aconteceu e muito menos quem é o pai do filho que está esperando. Depois de investigar, Ariane tem desagradáveis surpresas que mudarão não só a sua vida como a vida de muitas pessoas, principalmente a do homem que lhe engravidou.

Desde que Ariane descobre que vai dar à luz um filho de um criminoso dito cruel e perigoso chamado Bob (vivido por Albert Dupontel, que também roteirizou e dirigiu o longa), ela não consegue aceitar a ideia de ter e criar a criança, tentando provocar um aborto de uma forma um tanto quanto inusitada, com um interessante discurso de sentença antes da prática em que compara a sua gravidez a uma invasão de propriedade privada. Salva por Bob, Ariane se vê presa por ele em sua própria casa, passa a conhecê-lo melhor e até o ajuda a tentar encontrar uma falha em seu dossiê, já que ele insiste que não cometeu o crime grotesco de que é acusado. Enquanto Bob permanece na casa de Ariane, diversas reportagens sobre o crime e seu desaparecimento da prisão são exibidas em diferentes canais de televisão, com uma participação especial de Jean Dujardin (O Artista e Os Infiéis), que surge como intérprete de sinais de surdos-mudos galhofeiro para um jornal televisivo. Outro personagem engraçado é o advogado gago Trolos, que mais atrapalha do que ajuda seus clientes, vivido por Nicolas Marié, que possui uma parceria de quatro filmes com Dupontel e também já participou de uma produção do mestre JeunetMicMacs - Um Plano Complicado.


Dupontel faz uso do extraordinário de forma divertida (outra característica dos filmes de Jeunet) para compor a cena em que Bob, desesperado após a leitura completa de seu dossiê por Ariane sem encontrar nenhum furo, começa a imaginar como o crime que insiste não ter cometido poderia ter ocorrido na realidade, ao mesmo tempo em que narra tais versões absurdas para a juíza. Outra cena marcante da película é a que aponta a mudança no comportamento de Ariane em relação a sua gravidez, em que, imageticamente, de maneira bela e delicada, seu útero é comparado ao universo que envolve o bebê. Já o clímax da trama ocorre no julgamento de Bob, cena divertidíssima em que Ariane toma uma posição inimaginável para uma meritíssima juíza.


Além de vencer dois prêmios César e concorrer a outros dois supracitados, Uma Juíza sem Juízo ainda entrou na competição nas categorias de Melhor Montagem e Melhor Filme, concorrendo com nomes de peso, como O Passado, Azul é a Cor Mais Quente, Eu, Mamãe e os Meninos e A Pele de Vênus. Diferentemente dos filmes anteriores de Dupontel, todos comédias pastelão, Neuf Mois Ferme (no original) é uma comédia leve e cativante, com arco dramático bem desenvolvido e interpretações competentes. Seu título em português pode passar uma ideia errada de sua personalidade, fazendo-o se parecer com mais um de seus antecessores na filmografia do diretor, mas seu conteúdo surpreende a quem lhe dá uma chance. Embora não possua uma história genial e utilize alguns clichês do gênero, Uma Juíza sem Juízo é um filme criativo e divertido que possui grande mérito. Albert Dupontel está no caminho certo.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival Varilux de Cinema Francês 2014

Uma Juíza sem Juízo (Neuf Mois Ferme)

França - 2011. 82 minutos.

Direção: Albert Dupontel

Com: Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié, Philippe Duquesne, Philippe Uchan e Jean Dujardin.


Nota: 4

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lulu, Nua e Crua

Responsável pela direção de diversos documentários, a cineasta islandesa Sólveig Anspach escolheu os sentimentos e dilemas femininos como tema central de seus longas-metragens. Pela segunda vez eleita para encarnar a protagonista (a primeira foi em Haut les Cœurs!, de 1999, que lhe rendeu o César 2000 de Melhor Atriz), Karin Viard é Lulu, uma mulher acomodada a seu casamento infeliz e à dedicação aos filhos, que decide, por um impulso após uma entrevista de emprego frustrada, largar tudo por alguns dias para dar um colorido à sua vida, que encontra-se em tons de cinza. Durante seus dias de liberdade, ela conhece três pessoas que serão marcantes para sua jornada rumo ao redescobrimento de si mesma: um homem sobre os cuidados dos irmãos, uma garçonete maltratada pela patroa e uma senhora idosa que aguarda tediantemente a sua morte. Lulu, Nua e Crua é o que podemos chamar de road-movie sem amarras – não se prende a estradas, veículos ou convenções, apenas segue seu curso, sem se fixar a lugar nenhum. É a busca pela felicidade e o contato com o íntimo. É o conhecer-se em sua plenitude. É a afloração da feminilidade em sua forma mais pura.


Em uma das melhores representações de sua carreira, que a fez ganhar o prêmio de interpretação feminina no Festival de Sarlat 2013, Karin Viard emociona e diverte o espectador com sua encantadora Lucie, que de tanto ser chamada de Lulu, esqueceu-se de sua verdadeira identidade. Sem um teto e sem dinheiro, ela precisa contar com a ajuda alheia para se manter e acaba criando laços por onde passa, encontrando em estranhos o carinho e a amizade de que tanto precisava. Assim acontece, de maneira similar, com Bettie, personagem da eterna musa Catherine Deneuve, em Ela Vai (2013), de Emmanuelle Bercot, que, como Lulu, também se encontra sem vitalidade e decide partir sem rumo certo. Outro ponto em comum entre os dois filmes é a presença da atriz Claude Gensac, que interpreta, com a mesma competência, a mãe de Bettie no longa de Bercot e a senhora idosa no longa de Anspach.


Bouli Lanners (que também marcou presença no Festival Varilux de Cinema Francês 2014 nos filmes A Grande Volta e Uma Juíza sem Juízo, em uma ponta) é mais um destaque de Lulu, Nua e Crua na pele de Charles, um homem solitário e desanimado com a vida, que está sempre acompanhado dos dois irmãos – a dupla de atores Pascal Demolon e Philippe Rebbot, que dá um toque de humor à película. Apesar do primeiro contato bastante estranho, Charles e Lulu descobrem juntos uma nova e alegre sintonia, que os ajuda a recuperar o gosto pela vida.

Com detalhes visuais pertinentes às cenas e um final delicadamente singelo, Sólveig Anspach conseguiu construir uma história tocante e envolvente, com a qual muitas mulheres podem se identificar. Acompanhamos a empreitada de Lulu com atenção e empatia, observando sua evolução durante toda a trama. Somos testemunhas da transformação de uma mulher frágil e insegura em uma mulher firme e confiante. A borboleta finalmente se desnuda de sua crisálida e alça voo, sem vergonha de ser feliz.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival Varilux de Cinema Francês 2014

Lulu, Nua e Crua (Lulu Femme Nue)

França - 2014. 87 minutos.

Direção: Sólveig Anspach

Com: Karin Viard, Bouli Lanners, Claude Gensac, Marie Payen, Nina Meurisse e Patrick Ligardes.


Nota: 4

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Uma Viagem Extraordinária

Quem foi ao Instituto Moreira Sales assistir ao novo filme do diretor francês Jean-Pierre Jeunet no segundo dia do Festival Varilux de Cinema Francês (11 de abril), intitulado Uma Viagem Extraordinária, teve o prazer de participar de um debate após a sessão com o próprio, além de poder apreciar, antes do filme, o seu curta-metragem Foutaises, de 1989, o quarto de sua carreira, que ganhou, inclusive, o prêmio César de curta-metragem no mesmo ano. Podendo ser traduzido livremente como “Futilidades” ou “Bobagens”, o curta é protagonizado pelo ator Dominique Pinon, que iniciou a parceria com Jeunet justamente neste projeto, contando e mostrando de forma descontraída e divertida coisas de que gosta e de que não gosta, das mais simples às mais delicadas, propalando os gostos do próprio diretor e roteirista para a câmera. É através deste curta que temos contato direto com o que se tornaria uma marca registrada nas obras posteriores de Jeunet, principalmente na mais conhecida e amada delas – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Tais detalhes de bobos e fúteis não têm nada, pois são essenciais para o pleno entendimento das sensíveis e excêntricas personagens do mestre Jeunet.


Uma Viagem Extraordinária, adaptação do livro “As Obras-Primas de T.S. Spivet” (The Selected Works of T.S. Spivet), do escritor estadunidense Reif Larsen – que confessou a Jeunet que, ao ver sua obra-prima Amélie, teve a impressão de que alguém havia coçado a sua cabeça para fazer este filme –, é uma história tipicamente americana, ambientada numa cidadezinha de Montana. Filmado no Canadá por questões de liberdade laboral, o longa marca a estreia de Jean-Pierre Jeunet na utilização da tecnologia 3D (com a mesma equipe responsável pelo também primeiro trabalho em 3D de Martin Scorsese, A Invenção de Hugo Cabret) e o tira consideravelmente de sua zona de conforto, com três características que podem causar um estranhamento inicial no público: uma trama que se passa fora da França, com uma cultura bastante diferente e uma língua que ele não domina. Porém, o diretor tirou de letra o desafio, como fez em 1997 com o hollywoodiano Alien - A Ressurreição, curiosamente bem recebido pelos franceses. Os efeitos 3D têm bom funcionamento em alguns momentos, fazendo toda a diferença em certas cenas, mas em outros não é quase percebido. O problema pode estar na qualidade da transmissão e dos óculos distribuídos nos cinemas, como observado por Jeunet no debate, que afirmou ter tido total dedicação ao 3D nas filmagens, chegando a refazer cenas para que o resultado final fosse perfeito. Embora Uma Viagem Extraordinária seja o trabalho mais realista de Jeunet, inclusive no que diz respeito à fotografia mais próxima do real, ainda assim está inserido dentro do que ele chama de “realismo poético”, com seus incríveis detalhes e traços característicos, presentes nos 105 minutos de fantasia, emoção e aventuras, que vão desde viajar escondido num trem de carga e provar pela primeira vez um cachorro-quente a dar uma entrevista a um tendencioso programa de televisão.


T.S. Spivet é um menino de dez anos superdotado e apaixonado por ciência que decide fugir de casa e cruzar os Estados Unidos para receber um importante prêmio científico em Washington. Sua pouca idade e um pesado segredo que carrega são a grande surpresa pela qual ninguém esperava. Kyle Catlett (da série americana The Following) interpreta o gênio mirim T.S., cuja natureza é bastante parecida com a sua, o que o levou a querer o papel e a consegui-lo. O elenco ainda conta com a maravilhosa Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie e o veterano Dominique Pinon, em um pequeno papel que lembra o Popeye e desencadeia a segunda metáfora mais importante do filme, citada diversas vezes durante a fita, sobre “encontrar a sua árvore”, que pode ser entendido no contexto da trama como encontrar o seu porto seguro e um modo de superar os seus problemas, medos e traumas. A máquina de movimento perpétuo, invenção que rendeu o prêmio a T.S., mostra-se como a principal metáfora, que permeia toda a história. Ele viu seu irmão gêmeo Layton (vivido por Jakob Davies) morrer de uma forma brutal e se sente culpado por isso, tendo as suas invenções e a sua imaginação como válvulas de escape. Durante sua solitária viagem, seu enorme sentimento de culpa vem à tona e preenche tanto os seus pensamentos que não consegue mais guardar para si, fazendo da cena de seu difícil desabafo a mais emocionante do filme. Ele precisa superar o trauma e aprender a viver sem seu irmão, precisa entender que a vida, assim como a máquina que inventou, uma hora perde o seu movimento dito perpétuo e tem um fim, mas também possui um recomeço, lindamente demonstrado na cena final.


Com um roteiro de belos diálogos e frases marcantes – como “A sala cheira a couro molhado de uísque e fotografias velhas” e "Por que o homem produz tantos ângulos retos enquanto seu comportamento é tão tortuoso e ilógico?" – criados por Guillaume Laurant, que trabalha com Jeunet desde O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, uma trilha sonora harmoniosa (assinada pelo estreante canadense Denis Sanacore) e um visual lindíssimo (com referências imagéticas específicas a Eterno Amor e Ladrão de Sonhos), L'Extravagant Voyage du Jeune et Prodigieux T.S. Spivet (no original), evidencia mais uma vez o talento, a competência e a sensibilidade de Jean-Pierre Jeunet à frente de uma película. Apesar de ser um projeto cinematográfico um pouco inferior aos que o precederam, ainda assim é encantador, como não poderia deixar de ser. Um filme que une o sentimentalismo aflorado da narrativa ao mundo extraordinário da imaginação da alma infantil de Jeunet, tão genuíno quanto a jornada de T.S. Spivet.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival Varilux de Cinema Francês 2014

Uma Viagem Extraordinária (L'Extravagant Voyage du Jeune et Prodigieux T.S. Spivet)

França/Canadá - 2013. 105 minutos.

Direção: Jean-Pierre Jeunet


Com: Kyle Catlett, Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Jakob Davies, Niamh Wilson e Dominique Pinon.

Nota: 4

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