domingo, 30 de março de 2014

Coletiva de Imprensa de Rio 2

Nesta segunda-feira, dia 17 de março, ocorreu a coletiva de imprensa do filme Rio 2, continuação da bem sucedida animação Rio, com a presença do diretor Carlos Saldanha, o ator Rodrigo Santoro (que dubla Túlio) e os músicos Carlinhos Brown e Sérgio Mendes. Estive presente no Parque Lage, no Rio de Janeiro, para a cobertura do evento. A boa interação entre o quarteto era clara, e as perguntas foram respondidas de forma descontraída durante toda a entrevista.

Foto por Raíssa Rossi

Sobre a inclusão do futebol na trama de Rio 2, Carlos Saldanha diz que o roteiro não foi escrito pensando na Copa de 2014, pois p esporte já era algo que ele gostaria de ter destacado no primeiro filme por ser uma das qualidades do Brasil, mas não houve espaço para tal. Porém, ele afirma que, claro, fez os cálculos para poder prever a data de lançamento, que deveria ser antes ou depois da Copa – de preferência antes, como irá acontecer muito em breve. A volta que Blu e sua família dão pelas cidades-sede da Copa também não foi proposital, segundo Saldanha; foi apenas o caminho que eles deveriam percorrer até a Amazônia. “A gente só deu uma voltinha por Salvador para homenagear o Carlinhos Brown; tinha que colocar Salvador na história”, brinca. Questionado sobre a utilização de estereótipos no longa, Saldanha diz que nem tudo é somente estereótipo, já que há certas características do país que precisam ser mostradas. “A gente procura valorizar as coisas boas e as coisas que visualmente tragam uma inspiração para a história ser escrita”, explica. Ainda segundo Saldanha, uma grande preocupação sua ao criar a animação foi não só divertir toda a família, mas também educar, informar e despertar a curiosidade das crianças sobre as araras azuis e suas histórias, para que já comece a ser criada uma consciência ambiental em suas mentes e influenciá-las positivamente em relação ao assunto.

Foto por Raíssa Rossi

A trilha sonora, comandada por Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, e com John Powell na curadoria musical, nesta produção tinha um papel ainda maior que na primeira (voltada ao samba e ao Carnaval): mostrar que no Brasil existe uma grande diversidade de ritmos interessantes que trazem a mesma alegria que o samba e que fazem parte da nossa cultura. Na busca por novos sons, Milton Nascimento, Barbatuques e Uakti foram incluídos na mistura musical de Rio 2, juntamente com os ritmos da ciranda, do carimbó e do maracatu, oriundos das regiões Norte e Nordeste do país, e também da quadrilha da festa junina.

Ao falar sobre a personagem Túlio, que recebe sua voz tanto na dublagem em português quanto na em inglês, Rodrigo Santoro declara que foi uma experiência muito prazerosa em ambos os filmes e que não titubeou ao ser convidado por Saldanha para dublar Túlio pela segunda vez, pois gostou muito de fazê-lo na primeira, por ser uma personagem que muito aprecia – simpático, divertido, apaixonado pelos pássaros a ponto de tentar se comunicar com eles e com certa inocência – e com o qual se identifica. “É um exercício criativo com muita liberdade, onde exploramos diversos caminhos, sempre buscando encontrar a alma da personagem através da voz”, completa. Sendo Rio 2 um longa traduzido para pouco mais de 30 línguas e levado para mais de 50 países, Saldanha fala sobre o cuidado que teve na tradução português-inglês e para outras línguas, ajudando os tradutores de outros países com observações no roteiro, pois há certas expressões que não possuem tradução exata e que necessitam da criação de outra com o mesmo sentido e mesma essência das originais. O roteiro foi escrito em inglês e traduzido para o português, ao contrario das músicas, que foram todas compostas em português para depois serem traduzidas.

Foto por Raíssa Rossi

Para fechar as entrevistas, Santoro fala de seus projetos futuros, como o filme chileno The 33, sobre os mineiros que ficaram presos na mina em 2010, cuja gravação acabou exatamente um dia antes da coletiva. Saldanha o complementa com humor revelando que em seus três anos de trabalho em Rio 2, Santoro gravou aproximadamente sete filmes, incluindo 300: A Ascensão do Império (que está em cartaz nos cinemas) e Rio, Eu Te amo, projeto do qual ambos participam.

Foto por Raíssa Rossi


Rio 2 estreou no Brasil dia 27 de março com classificação livre e promete divertir crianças e adultos de todas as idades.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Rio 2

Se na animação Rio (2011) o diretor Carlos Saldanha (da trilogia A Era do Gelo) quis mostrar o seu amor por sua cidade natal, o Rio de Janeiro, em Rio 2, a continuação, seu objetivo é fazer uma homenagem ao Brasil. O casal de araras azuis Blu e Jade, agora com três filhos – Bia, Carla e Thiago –, saem da vida doméstica na Cidade Maravilhosa e viajam até a Amazônia para que seus filhos aprendam a viver como pássaros de verdade. Junto com seus amigos Nico, Pedro e Rafael, a família se aventura e se diverte na floresta, com exceção de Blu, que tem dificuldade para se adaptar à vida selvagem e ser aceito por seu sogro, além de ser alvo da vingança de Nigel.


O filme começa com o famoso réveillon da Praia de Copacabana, perto da hora dos fogos. Túlio e Linda agora são casados e vivem na reserva que criaram com Blu e sua nova família. Na viagem que fazem para a Amazônia, descobrem que há uma possibilidade de haver mais araras azuis além de Blu e Jade, despertando a curiosidade da mesma, que convence Blu a levar as crianças até lá, e a ira do dono de uma madeireira ilegal na região onde estão, que fará de tudo para silenciar os dois que chama de ”ecochatos” para não chamar atenção para seu negócio, que, por sua vez, ameaça o santuário de pássaros onde Blu e sua família estão vivendo em sua temporada na floresta. Jade ficar feliz ao reencontrar o seu pai, Eduardo, sua tia Mimi e seu amigo de infância Roberto, provocando ciúmes em Blu, que se sente completamente deslocado e desconfortável naquele ambiente.


Enquanto em Rio há foco no samba e no Carnaval, em Rio 2 Saldanha escolheu dar maior abrangência à cultura brasileira como um todo, utilizando os ritmos da ciranda, carimbó e maracatu (típicos do Norte e Nordeste do país), uma nuance da capoeira (através de duas tartarugas) e incluindo o futebol, esporte que representa o país no mundo e é o mais amado pelo seu povo, na trama numa partida entre as tribos das araras azuis e das araras vermelhas, que vivem brigando por território, mas se juntam para defendê-lo. A performance de Blu no jogo lembra bastante a do personagem Timothy (Cameron 'CJ' Adams) em A Estranha Vida de Timothy Green (Peter Hedges, 2012): a emoção de sair do banco de reserva e entrar em campo é tão grande que ambos cometem o mesmo erro na hora de marcar o gol. Impossível também não se lembrar da comédia Entrando Numa Fria (Jay Roach, 2000) quando o assunto é a dinâmica de relacionamento entre Blu e seu sogro Eduardo, que é bastante similar à de Greg Focker (Ben Stiller) e Jack Byrnes (Robert De Niro) no tal “círculo de confiança da família Byrnes”, no qual Greg sofre na mão de seu sogro para entrar, assim como Blu sofre nas penas de Eduardo, que insiste em fazer um treinamento de selva com ele a fim de desumanizá-lo. Há, ainda, a equivalência entre Kevin (Owen Wilson), ex-namorado da noiva de Greg que Jack adora, e Roberto, braço direito de Eduardo e amigo de infância de Jade que vive flertando com ela.

Outras ótimas referências presentes em Rio 2 são as alusivas a Shakespeare (em especial Hamlet e Romeu e Julieta), por meio das personagens Nigel, a cacatua má que deseja se vingar de Blu, e Gabi, uma rã venenosa que é apaixonada por Nigel, além da cena impagável de Nigel dançando e cantando uma versão de “I Will Survive” fantasiado de Hamlet.


A trilha sonora – mais uma vez assinada pelos músicos Carlinhos Brown e Sérgio Mendes, e comandada pelo premiado compositor John Powell – continua sendo o ponto alto em Rio 2, uma vez que o Brasil possui forte musicalidade e a animação é também um musical. O roteiro, co-escrito por Carlos Saldanha, Don Rhymer (que também participou do primeiro longa e faleceu no final de 2012, no meio do projeto, que é dedicado a ele), Carlos Kotkin, Jenny Bicks e Yoni Brenner, é coerente e envolvente. Além dos valores da amizade, do amor e da perseverança de seu antecessor, este traz em sua bagagem de valores a importância da família, o perdão e o reconhecimento, assim como as mensagens já batidas de que o bem e o amor sempre vencem, e de que todos têm seu valor, função e utilidade numa comunidade. Sob a competente direção de Saldanha, Rio 2 é um filme para toda a família, ainda melhor que o primeiro.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Rio 2 (Idem)

França - 2011. 89 minutos.

Direção: Carlos Saldanha

Com: Rodrigo Santoro, Leslie Mann, Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Jemaine Clement, Kristin Chenoweth, Bruno Mars, George Lopez, Tracy Morgan, Andy Garcia e Jamie Foxx.


Nota: 4

segunda-feira, 24 de março de 2014

Prenda-me

Uma mulher sai de casa à noite, deixa tudo para trás e vai até uma delegacia confessar o assassinato de seu marido Jimmy (Marc Barbé, de Piaf - Um Hino ao Amor, 2007 e A Religiosa, 2013), cometido há 10 anos, pedindo à policial de plantão que a prenda, embora não seja essa a sua vontade após interrogá-la. É disso que se trata Prenda-me, novo longa-metragem de Jean-Paul Lilienfeld (O Dia da Saia, 2008). Sophie Marceau representa uma mulher reprimida que convive com a violência doméstica desde a infância, passando com seu marido pelas mesmas situações que sua mãe passava com seu pai. Pontoise – interpretada brilhantemente por Miou-Miou (O Oitavo Dia, 1996 e A Datilógrafa, 2012) – é a policial que ouve atentamente a sua história, que é também um desabafo que nunca conseguiu fazer, e se recusa a prendê-la por ter matado o seu agressor, à medida que toma conhecimento de todos os fatos envolvidos antes do ato cometido por esta mulher. Com algumas tiradas irônicas, a policial tenta convencê-la a desistir de se entregar, por não considerar que tenha feito nada de errado, porém sem sucesso. Vemos em Pontoise uma mistura de sentimentos em relação à assassina confessa: espanto, pena, compreensão, solidariedade, fúria, impaciência e até certa identificação, que só é exposta ao final da trama.


Ao contrário de seus trabalhos anteriores cujos títulos são os nomes de sua protagonista, Anna Karenina (Bernard Rose, 1997) e Nelly (Laure Duthilleul, 2004), em Prenda-me o nome da personagem de Sophie Marceau não é citado nenhum momento, mas a personagem possui igual relevância. A mulher que representa perdeu sua identidade, sente-se um nada no mundo, um ser impotente às situações que suportava passivamente com o marido antes de matá-lo e com o filho, que não se conforma com a morte do pai mesmo depois de tantos anos, e decide punir a mãe com uma cruel violência psicológica. Ela é apenas mais uma mulher que amarga a violência doméstica calada e reprimida, ela pode ser qualquer uma, ela pode ser todas as mulheres que são ou já foram vítimas desta violência covarde. Esta mulher é como Ruth (MaryLouise Parker) de Tomates Verdes Fritos (Jon Avnet, 1991) e Celie (Whoopi Goldberg) de A Cor Púrpura (Steven Spielberg, 1985), com a diferença de que não tem amigos para ajudá-la a enfrentar a situação nem pode recorrer à fé, já que não recebeu uma formação religiosa de seus pais; ela só pode contar com ela mesma. Para ela, entregar-se à polícia e ser presa significa um ato de revolta e libertação. Quando ela diz “prenda-me” a Pontoise, ela quer dizer, na verdade, “liberta-me”: liberta-me da dor, liberta-me do sofrimento, liberta-me da passividade, liberta-me da impotência, liberta-me da culpa. Sim, culpa. Apesar de ser ela a vítima, a culpa de ter matado seu marido nunca a deixou em paz, levando-a até a defendê-lo em alguns momentos na delegacia durante seu depoimento, ato comum em vítimas de violência doméstica.


Com belas atuações e uma excelente interação entre Marceau e Miou-Miou, mais do que um filme-denuncia que nos faz refletir sobre a violência doméstica, Arrêtez-moi (no original) é um grito desesperado de socorro de uma mulher humilhada, disposta a pagar o preço que for para recuperar a sua sanidade e a sua dignidade. Uma obra ao mesmo tempo delicada e brutal, como somente os franceses sabem fazer, que merece ser vista por todos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Prenda-me (Arrêtez-moi)

França - 2012. 99 minutos.

Direção: Jean-Paul Lilienfeld

Com: Sophie Marceau, Miou-Miou e Marc Barbé.


Nota: 4

quarta-feira, 19 de março de 2014

Entrevista com diretor e atriz do filme A Gaiola Dourada

No dia 9 de janeiro deste ano, entrevistei a atriz Jacqueline Corado e o diretor Ruben Alves, que dirigiu e roteirizou seu primeiro longa-metragem, a comédia dramática luso-francesa A Gaiola Dourada, cuja pré-estreia aconteceu no dia anterior na Maison de France, seguida por uma festa comemorativa em numa mansão no bairro da Glória, no Rio de Janeiro, onde também ocorreram as entrevistas. Tanto Jacqueline quanto Ruben foram extremamente simpáticos e divertidos enquanto respondiam às perguntas, e até se emocionaram em alguns momentos, estando bastante à vontade durante todo o bate-papo. Pelo fato de os dois conhecerem e vivenciarem de perto a temática do filme, foi possível perceber bastante sinceridade em suas respostas.

Ruben Alves inicia a conversa falando que o título A Gaiola Dourada e a ideia para o filme surgiram de uma entrevista que ele viu na televisão sobre uma zeladora portuguesa em Paris que revela seu cotidiano desde que foi morar na cidade e diz que tem vontade de retornar a Portugal, mas que se sente muito bem em sua “gaiola dourada”. Ele percebeu que gostaria de retratar a vida desses imigrantes portugueses na França, que residem há aproximadamente 40 anos no país, que reconstruíram suas vidas longe de sua terra natal e que nutrem esse questionamento sobre voltar para ela ou continuar em seu novo país. A partir daí, Ruben começou a escrever, incentivado por seu amigo de infância e produtor Hugo Gélin, pois havia muito pouco material sobre o assunto no cinema. Ruben ainda diz que a comunidade portuguesa na França é bastante numerosa, porém que por ser muita discreta e integrar-se tão facilmente, sua história é pouco conhecida e quase anulada.


Além da reportagem, as outras inspirações de Ruben para realizar o seu projeto foram a sua família, os seus amigos, pessoas de seu convívio, outros imigrantes que conheceu e a vida, sendo seus pais (para quem dedicou o filme) a maior inspiração, pois são portugueses imigrantes como o casal protagonista da película. Ruben diz que todos os personagens foram inspirados em alguém do grupo por ele citado e que ele próprio é uma mistura de todos. Jacqueline cita que “Ruben é um grande observador da comunidade onde nasceu e cresceu, e que os personagens são frutos de uma grande inteligência e uma grande sutileza, adquirida através de um grande estudo étnico-social que Ruben fez a vida toda, e que por isso o filme é muito sutil e verdadeiro”. Ela diz que conheceu várias “Lourdes” (nome de sua personagem) em Paris durante a sua vida e que em todo filme sobre imigrantes as pessoas se reconhecem nos personagens. Sobre sua personagem no filme, Jacqueline disse: “adorei interpretar a Lourdes porque é uma mulher muito expressiva, um pouco tragediante e eu conheço à minha volta, na minha família, pessoas assim. Então foi muito bom, muito gostoso poder interpretar. Para mim, os primeiros dias foram muito complicados porque era quase uma terapia; eu estava me integrando ao elenco. O Ruben soube criar desde o primeiro dia uma atmosfera de uma família recomposta. O fato de selecionar atores franceses para fazer franceses, de impor atores portugueses para fazer portugueses e atores luso-descendentes como luso-descendentes, a gente soube criar ali, com a maneira que ele tem sempre agradável, uma espécie de família; então a gente logo mergulhou naquela emoção, naquela criação de família. Para interpretar essa personagem era quase uma psicoterapia, vinham coisas à tona da minha família e da minha própria história. Mas foi uma felicidade absoluta. Foi um orgulho, uma honra absoluta, não só como atriz, pois era o primeiro filme feito sobre a minha comunidade, feito e escrito por um filho dessa comunidade, que sabe falar dela como ninguém. Pode vir toda a crítica que vier de volta, porque ele sabe o que está fazendo”. Além disso, Jacqueline se referiu à Lourdes como uma personagem de destaque, já que sua personalidade destoa do perfil discreto da comunidade portuguesa, como citado anteriormente por Ruben, que também descreve a personagem: ela reivindica, quer seus direitos, quer ter seu próprio negócio, se destacar, quer ser francesa, tem atitude, é uma geração depois da geração da irmã Maria, interpretada por Rita Blanco, que é zeladora e é explorada pela patroa. Os dois tiveram como referencial para criar Lourdes uma personagem libanesa, mas como Ruben queria destacá-la pela cor das roupas para mostrar esse lado mais “para frente”, ela acabou se parecendo com uma espanhola – mais especificamente com Raimunda, interpretada por Penélope Cruz em Volver (2006), de Pedro Almodóvar, como proferido pelo Almanaque Virtual.


Sobre a composição do elenco, Ruben reiterou que foi buscar atores portugueses em Portugal – a Rita Blanco em Lisboa, que, para ele, é a melhor atriz portuguesa. Joaquim de Almeida ele encontrou por acaso no Festival de Cannes, foi apresentado por uma amiga e logo lhe perguntou se gostaria de ler o seu roteiro. Em suas palavras: “Acho que ele podia dar certo porque é imigrante, mora nos Estados Unidos há 36anos, então eu acho que ele ia perceber e, como ele faz sempre os maus nos filmes americanos, aquela coisa do latino ser mau, achei muito interessante ele fazer um personagem muito humilde e trabalhador, uma coisa diferente; o challenge era muito bom”. Ele falou também que a atriz portuguesa Maria Vieira, que já participou das novelas “Aquele Beijo” e “Negócio da China” aqui no Brasil, era essencial no filme, pois ela representa o maternal, a proteção, e tem uma identidade genuinamente portuguesa. Somando-se a esses, entraram no elenco ainda os atores luso-descendentes Jean-Pierre Martins, Jacqueline Corado e Barbara Cabrita. Ruben disse que “foi mágico, porque eles perceberam logo ao ler o roteiro que ‘eu sei isso, são os meus pais ou a minha tia, a minha família’. Os detalhes todos eles perceberam logo, foi muito fácil logo de início”. Ruben cita, ainda, que não conhecia nenhum dos atores do elenco antes de começar o projeto, havia apenas a vontade de trabalhar com alguns dos atores e houve os encontros casuais, formando rapidamente uma grande família nas gravações.

Acerca das condições de filmagem, Jacqueline Corado contou terem sido maravilhosas, as melhores possíveis. Mais uma vez sem poupar elogios ao diretor Ruben Alves, ela o compara a um maestro regendo uma orquestra, pois não são todos que possuem o talento de aproveitar ao máximo o ótimo elenco que têm em mãos. Em suas palavras: “o diretor-maestro vai pegar todos os elementos e criar uma harmonia conjunta, com todos fazendo o mesmo movimento, enquanto que outras pessoas vão pegar bons elementos, bons músicos, mas nem sempre tocando em sintonia. Isso é um talento fabuloso que ele tem. Ele sabe exatamente a música que ele quer tocar, tem esse talento de pegar a personalidade de cada um e trazer para ali, e ele faz sem você se dar conta, só percebe que está fazendo porque está trabalhando com outros. Essa energia conjunta, que se sente no resultado do filme, vem dessa força dele. Certamente, de tudo isso que você faz naturalmente com seus amigos, e é isso o que eu chamo de um bom maestro – conseguir harmonizar todo mundo para tocar a mesma coisa”. Sobre as dificuldades durante a produção e filmagem do longa, Ruben afirmou de cara não ter tido nenhuma, pois, por ser o seu primeiro filme, ele tinha uma inocência e um entusiasmo muito grande, então achava tudo o que acontecia bom. Apesar de alguns problemas técnicos e imprevistos, ele olha para trás e diz para si mesmo “foi bom”, porque ele adquiriu experiência para seus próximos trabalhos. Ele não considera nada um problema, apenas diz que seu maior desafio foi impor atores portugueses numa produção francesa, pois não são conhecidos na França. Ele acredita que é preciso acreditar e apostar para haver uma grande produção.


O sucesso que a obra franco-portuguesa teve na França (1,5 milhão de espectadores, que é um ótimo público para um diretor novo, ainda desconhecido, segundo Jacqueline), aos olhos de Ruben, se deve ao fato de os imigrantes portugueses na França estarem à espera de uma representação, o que gerou uma enorme identificação em relação a La Cage Dorée (nome original). Há um apego muito grande a tudo o que vem de sua terra natal quando se está em outro país e o filme de Ruben tratou desta questão de uma forma como nunca havia sido tratada antes no cinema. A comunidade portuguesa da França se sentiu muito orgulhosa deste trabalho cinematográfico, gerando milhares de mensagens a Ruben no seu e-mail e em seu perfil do Facebook. Pessoas que antes tinham vergonha de serem imigrantes portugueses e filhos de imigrantes portugueses passaram a sentir orgulho disso, por isso o filme foi tão importante para a comunidade luso-francesa. Além disso, ele recebeu também mensagens de italianos, árabes, espanhóis, entre outras etnias, agradecendo pela produção. “Há muitos desraizados por todo lado e, no fundo, somos todos desraizados. Nascemos e crescemos num país, e depois vamos para outro, ou para outro estado, outra cidade. Isso todos podemos sentir. E acho que é por isso o filme fez um pequeno sucesso em vários países, porque eles sentem uma coisa que é universal. Isso tudo é uma história de amor, de família”, completa. Jacqueline adiciona o fato de que o longa não é pretencioso, não utiliza atores super conhecidos – é uma homenagem, é verdadeiro, e as pessoas estavam precisando disso. “É um filme que se apresenta como uma comedia quando você lê a sinopse, e finalmente tem um segundo efeito: por ser uma comedia, você ri, mas de repente, de um modo muito sutil, fala de coisas que dão para pensar, e acho que as pessoas têm sede disso. Aquela comedia pastelão, um pouco pesada, já chega às vezes com lições, como ‘cuidado, os imigrantes portugueses também podem ser sensíveis’; e essas lições as pessoas também não querem. E ele (Ruben) fez ali uma receita muito sutil: parece uma comédia e de repente vai pondo umas mensagens, mas sempre com um sorriso, ser dar lição de moral”, defende. Jacqueline ainda expôs o fato de que apareceram mulheres francesas falando que há 20, 30 anos conviviam com uma empregada ou zaladora portuguesa e que, após ver o filme, perceberam que elas eram portuguesas e o que era ser portuguesa; houve uma abertura e uma apresentação de valores internacionais, como antes citou Ruben. Em Portugal, o filme foi um fenômeno social e de bilheterias, se tornando a produção de maior sucesso do ano de 2013. Jacqueline cita a crise séria que o país está vivendo, fazendo com que a auto-estima de sua população esteja em baixa. Devido ao alto índice de imigração como há muito tempo não havia, todos os luso-portugueses acabam se identificando de alguma forma, por isso o longa toca tanto. “Ele dá orgulho da portugalidade. Só depois que o filme foi projetado em Portugal que percebi que o Ruben foi muito além dos portugueses na França. Se você vir com cuidado, está falando dos elementos da nossa portugalidade. O que faz hoje um país com uma crise brutal, com políticos que nem sempre estão ao nível – muitas vezes não estão ao nível -, que acontecem coisas que nos fazem dizer ‘nossa, como esse país está’? Mas, de repente, chega um filme que nos faz rir, é uma comédia, e que lembra porque Portugal pode ser um grande povo, porque ser portuguesa é uma coisa tão boa, com elementos delicados e sensíveis. Eu penso nesse povo que está com sede disso, de retomar orgulho nele próprio. Pessoas atravessaram 200 Km para ver isso”, inteira. Ela ainda revela uma situação do país bastante triste e outra bastante interessante, que a faz se emocionar: “Foi 1 milhão de pessoas em 60 salas de cinema, pois várias salas de cinema fecharam por causa da crise. As pessoas não vão ao cinema. Conheço pessoas que foram ao cinema pela primeira vez. Nas salas, você via pessoas que não sabem ler nem escrever com pessoas diplomadas; ele conseguiu atingir todas as classes sociais. As pessoas no cinema diziam ‘nossa, eu sou português! Portugal está mal, mas sou português e tenho orgulho de ser’, e não é qualquer coisa hoje que nos faz sentir isso. Penso que há um impulso que não passa pelo racional, mas pelo emocional. É genial quando você vê o Cônsul e o Embaixador na sala comovidos”.


A primeira vez que o filme foi exibido publicamente, no Festival de l'Alpe d'Huez de 2013, faturou o Prêmio do Público, aliviando o estresse de Ruben devido à sua estreia como diretor. Segundo ele, foram quatro meses de edição até chegar no resultado esperado e sua ansiedade estava mais ligada ao fato de não saber como seria a reação da comunidade portuguesa e de seus pais, que não sabiam do que se tratava exatamente A Gaiola Dourada e tiveram uma surpresa ao assistir, além de ganharem seus nomes antes dos créditos como presente e uma forma de homenagem de Ruben. Jacqueline conta que também ficou bastante ansiosa com a primeira exibição do longa e que adorou a atuação de todos, menos a dela – “complexo de atriz”, ela brinca. Já na segunda vez, ela abstraiu. Além dos pais de Ruben, os pais dela também estavam na mesma sala de cinema, e ela diz que, graças ao Ruben, ela pôde homenageá-los e emocioná-los igualmente.

Para terminar a entrevista, Ruben afirma ter dois novos projetos cinematográficos em andamento – um que possui um pouco de portugalidade e outro completamente diferente. Mesmo sem saber qual virá primeiro, ele comenta que seguirá a mesma linha do primeiro no que se refere a tratar de assuntos profundos de maneira leve.  Jacqueline revela que este ano estará em cartaz com duas peças na França: “Memórias de duas jovens casadas”, de Balzac, e um monólogo de 1 hora e 15 minutos de uma autora sueca contemporânea, que gostaria muito de levar para Portugal e para outros países, inclusive para o Brasil.


*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

domingo, 16 de março de 2014

A Gaiola Dourada

A questão da imigração é tratada constantemente no cinema. Entretanto, não havia nenhuma obra específica cujo tema fosse a imigração portuguesa na França a partir da segunda metade do século XIX. A Gaiola Dourada, primeiro longa do diretor luso-descendente Ruben Alves, retrata exatamente esta situação, de forma muito leve e divertida. O filme conta a história de um casal português que vive há pouco mais de 30 anos em Paris, tem dois filhos lá nascidos e que ganhou uma ótima oportunidade de regressar à sua terra natal. Por terem se tornado indispensáveis em seu círculo de convivência, todos à sua volta começam a criar situações para que eles continuem na França, enquanto ambos decidem se realmente vão deixar para trás sua vida em Paris.


Maria (Rita Blanco) e José (Joaquim de Almeida) Ribeiro são, respectivamente, zeladora e construtor civil, e são extremamente eficientes em seus ofícios, deixando-se ser explorados por seus patrões sem parecer se importar. A bondade de ambos pode estar relacionada com seus nomes deveras comuns, que, coincidentemente, representam os nomes dos pais de Jesus Cristo na Bíblia. Mas a questão é que o casal sempre cede às vontades de seus superiores e até de sua família e vizinhos, preocupam-se mais com os outros que com si mesmos, gerando uma relação de dependência com muitos deles. A partir do momento que José recebe a notícia da morte de seu irmão, seguida de uma herança que exige em testamento a sua volta a Portugal para que possa ser usufruída, ele e Maria se veem num enorme dilema de retornar à sua amada terra natal ou continuar na cidade-luz, onde tiveram e criaram seus filhos e estabeleceram uma vida estável. A resolução, claro, só se dá no final do enredo, e de uma maneira não tão esperada após um jantar romântico ao som de uma marcante apresentação de fado.

Embora o filme seja oficialmente uma comédia, possui também uma certa carga dramática, feita para emocionar, e uma dose de romance, retratado nos papéis dos filhos do casal protagonista – Paula (Barbara Cabrita) e Pedro (Alex Alves Pereira). É também através dos dois personagens filiais que clichês, como namoro escondido dos pais, gravidez antes do casamento e mentira por vergonha das origens, são inseridos na trama. Outras personagens que merecem destaque são Lourdes (interpretada pela simpática Jacqueline Corado), que lembra a batalhadora Raimunda, vivida por Penélope Cruz em Volver (Pedro Almodóvar, 2006), e Rosa, uma típica portuguesa interpretada pela atriz Maria Vieira, que participou de duas novelas brasileiras (“Aquele Beijo” e “Negócio da China”).


Há uma enorme similaridade do filme do estreante Ruben Alves com o longa As Mulheres do 6º Andar (2010), de Philippe Le Guay. Os dois apresentam a situação de imigrantes em Paris – um sobre os discretos portugueses e o outro sobre as animadas espanholas, todos trabalhando em edifícios de pessoas ricas como zeladores ou empregadas. Contudo, em La Cage Dorée (no original) paira a dúvida sobre a volta ao seu país de origem, quando em Les Femmes du 6ème Étage (também no original) fica claro o desejo de retorno à terra natal por parte da maioria das personagens. Assim como Alves procurou atores portugueses para dar veracidade à história, Le Guay também buscou atrizes espanholas com a mesma finalidade, e o resultado foram duas belas e sensíveis produções.

A metáfora do título do filme franco-português possui o mesmo sentido do título do drama mexicano La Jaula de Oro (Diego Quemada-Diez, 2013), além de ambos serem bastante parecidos. Enquanto que no primeiro os personagens já estavam estabelecidos há muitos anos em outro país, no segundo um grupo de adolescentes guatemaltecos lutava para conseguir alcançar o sonho dourado de chegar aos Estados Unidos pela fronteira do México. Como mostrado em Nação Fast Food (Richard Linklater, 2006), Juan (Brandon López) viu seu sonho transformado num subemprego numa fábrica americana conjunto à uma ilegalidade no país, porém não deixou de ter seu objetivo alcançado de finalmente estar na sua “jaula de ouro”.


Sucesso de público na França e um fenômeno cinematográfico e social em Portugal, A Gaiola Dourada com certeza não é um filme para ser esquecido, tampouco preterido, pois é na sua simplicidade que possui força. A sua grande capacidade de alcance de público é outro ponto a favor – são 90 minutos de identificação, diversão e emoção. Que Ruben Alves traga mais filmes como este às telas.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Gaiola Dourada (La Cage Dorée)

França - 2013. 90 minutos.

Direção: Ruben Alves

Com: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry, Maria Vieira, Jacqueline Corado, Jean-Pierre Martins e Nicole Croisille.


Nota: 4

quinta-feira, 13 de março de 2014

Michael Kohlhaas

É século XVI, mas a situação é bem parecida com a do século XXI. Michael Kohlhaas (o excelente Mads Mikkelsen) é um vendedor de cavalos que vive tranquilamente na região de Cévennes com sua família. Ao ser enganado por um barão e sofrer uma injustiça com graves consequências, Kohlhaas busca recuperar a sua honra de todas as formas, inclusive iniciando uma guerra. Baseado na obra homônima de Heinrich Von Kleist, Michael Kohlhaas nos leva a refletir sobre as questões da justiça e os limites para sua busca, numa discussão bastante pertinente para os dias atuais.


Como em A Caça (Thomas Vinterberg, 2012), o personagem de Mads Mikkelsen é vítima de uma mentira que modifica por completo sua vida e de sua família, que amarga até o final os efeitos da injustiça contra o seu patriarca e sua sede pela correção de sua dignidade. Enquanto na aclamada película de Vinterberg toda a confusão foi causada por uma criança, no longa de Arnaud des Pallières tudo aconteceu graças à desonestidade de um superior. Uma outra referência ao abuso de poder ocorre três séculos antes, no filme Coração Valente (1995) quando o escocês William Wallace, personagem do também diretor Mel Gibson, não se curva diante de um direito ameaçado e também tem sua mulher assassinada, fazendo com que ele corra atrás de justiça não só para si, mas também para a liberdade de todo o seu país. Afinal, até onde a busca pela justiça é válida? O que é justiça? Um conceito subjetivo que varia de acordo com o benefício que se pode obter através da mesma?


A direção competente, porém lenta, de Pallières, juntamente com a belíssima fotografia, obriga o público a prestar atenção aos detalhes, principalmente às expressões e aos olhares, que nos fazem compreender cada cena mesmo quando há ausência de diálogos. Impossível não se sentir tocado pelo drama de Michael Kohlhaas. Embora o roteiro, co-escrito por Pallières e Christelle Berthevas, não seja surpreendente e carecer de um pouco de ação, possui coerência do início ao fim e levanta questões que, em tempos de crise e passeatas por todo o país, são de necessário debate para que, talvez, haja mudanças no futuro.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Michael Kohlhaas (Idem)

França / Alemanha - 2013. 122 minutos.

Direção: Arnaud des Pallières

Com: Mads Mikkelsen, Melusine Mayance, Delphine Chuillot, David Kross e Bruno Ganz.


Nota: 3

sexta-feira, 7 de março de 2014

Walt nos Bastidores de Mary Poppins

A trajetória para que o livro “Mary Poppins” (primeiro de uma série de oito), da escritora australiana Pamela Lyndon Travers, publicado em 1934, se transformasse em filme foi árdua e longa. O que para muitos autores era um sonho, Travers considerava um verdadeiro pesadelo. Levar a babá mágica às telas pelas mãos de ninguém menos que Walt Disney era quase um insulto à sua criadora, que tinha real desprezo pelas animações e personagens infantis da The Walt Disney Company. Disney travou uma batalha de 20 anos com Travers para convencê-la a lhe ceder os direitos para a adaptação cinematográfica. Após ferrenha insistência de Disney, o filme Mary Poppins finalmente saiu do papel em 1964 e obteve grande sucesso, tornando-se um clássico do cinema e da Disney. Walt nos Bastidores de Mary Poppins, de forma dramatizada, mostra justamente esse processo de produção do longa-metragem até a sua exibição na première em Hollywood, além de expor fatos que ocorreram na infância de P. L. Travers que a inspiraram a escrever sua primeira e mais famosa obra literária.


Na primeira cena do filme, conhecemos a pequena Helen “Ginty” Goff – nome verdadeiro de Travers – sentindo o vento em seu rosto em meio a uma bela paisagem campestre da Austrália, transparecendo muita paz e satisfação. Logo em seguida, a imagem de Helen se converte na imagem de Travers sentada numa poltrona, trancada em sua casa na Inglaterra, claramente inquieta e preocupada. Rígida, fechada, arrogante, mal humorada, agressiva e pouco flexiva: é assim que Travers é apresentada ao espectador. À medida que mergulhamos na vida de Helen Goff, começamos a compreender as atitudes da amargurada P. L. Travers. Durante toda a película, são traçados paralelos entre a infância e a vida adulta da autora na época da produção de Mary Poppins, intercalando-se as cenas de modo a delinear a tragédia formativa que moldou o seu comportamento dali em diante.

Quando Travers (interpretada brilhantemente pela versátil Emma Thompson) se vê sem dinheiro e prestes a perder a sua casa, finalmente aceita ir até Los Angeles por duas semanas para a aprovação do roteiro, onde se depara com um mundo alegre e colorido ao qual não está acostumada, sentindo-se incomodada e invadida. É aí que as pitadas de humor começam a ser introduzidas na trama. Paul Giamatti, que interpreta o motorista Ralph que a leva todos os dias para os estúdios Disney, é responsável por divertidas e emocionantes cenas com Travers. O primeiro encontro entre Travers e Walt Disney (vivido pelo ótimo Tom Hanks) foi bastante conflitante, e assim continuou até o fim do projeto. Muitas trocas de farpas permeavam a relação entre ambos, a começar pelo modo como se chamavam, exatamente do jeito que cada um detestava – Pamela e Sr. Disney. O que não percebiam é que possuíam a personalidade muito parecida, por isso não conseguiam se entender. Contudo, Walt conservava sua criança interior (vide a criação da Disneyland), enquanto Travers enterrou a sua há tempos junto com seus traumas familiares.


Havia sempre muitas divergências nas reuniões de roteiro entre os compositores Robert Sherman (B.J. Novak, da série The Office) e Richard Sherman (Jason Schwartzman, de Maria Antonieta – Sofia Coppola, 2007 e Moonrise Kingdom - Wes Anderson, 2012), o roteirista Don DaGradi (Bradley Whitford, de Perfume de Mulher - Martin Brest, 1992 e O Homem Bicentenário - Chris Columbus, 1999) e Travers, pois ela dificilmente aceitava o que lhe propunham, principalmente o filme ser um musical e ter animações que considerava tolas. “Mary Poppins é como se fosse da família!”, repetia Travers quando se desagradava com algo sugerido pelo trio e por Disney. O que o público vai descobrindo aos poucos é que Mary Poppins não é como se fosse da família, mas uma espécie de autobiografia de Travers, com personagens inspirados em pessoas que fizeram parte de sua infância, em especial sua tia Ellie (Rachel Griffiths, mais conhecida pelos seriados americanos Six Feet Under e Brothers & Sisters), fonte de inspiração da personagem-título, e seu pai, o gerente de banco Travers Robert Goff, que faleceu quando ela tinha sete anos, na pele de Colin Farrell (Pergunte ao Pó - Robert Towne, 2006 e O Sonho de Cassandra - Woody Allen, 2007). Da mesma maneira que para Travers, Mary Poppins era importante para Walt Disney não só pelo lado financeiro como também por uma causa familiar: uma promessa feita às filhas de que transformaria seu livro favorito em filme. De certa forma, tanto Travers quanto Disney tinham necessidade de provar sua capacidade aos outros – ele construiu um verdadeiro império onírico e empresarial, e ela uma personagem eterna, além de repetir em diferentes momentos a frase “sou perfeitamente capaz de fazer isso”. Outro ponto em comum entre os dois é a forte a relação entre autor e criatura, já que Disney revelou a Richard Sherman em um momento do longa que era muito apegado ao Mickey e se arrependeria muito se tivesse aberto mão do rato, símbolo de sua empresa, assim como Travers era apegada à sua querida Mary Poppins e não queria intervenções exageradas em sua história.



Por ser um filme produzido pelos estúdios Disney, já era esperado que seu criador fosse engrandecido. O competente roteiro de Kelly Marcel (co-roteirista do seriado Terra Nova e da adaptação de Cinquenta Tons de Cinza, e indicada ao BAFTA deste ano) e Sue Smith expressou somente qualidades de Walt Disney, com exceção do fato dele ser fumante, embora ele não apareça fumando propriamente. Há toda uma fantasia em volta do homem que construiu o reino encantado dos desenhos animados. Somente através dos detalhes e sutilezas podemos desvendar gradualmente o outro lado de Walt – o empresário que conseguiu erguer um poderoso e sólido império, que continua crescendo mesmo após o seu falecimento. É um homem de indiscutível valor, mas não imaculado. Sua obstinação e teimosia o levaram a produzir Mary Poppins da maneira como planejava desde o início, mesmo contra a vontade de Travers, tanto que ela o proibiu de realizar qualquer continuação utilizando sua babá mágica pelo resultado final não tê-la agradado. Ademais, são trabalhadas na película indicações imagéticas de que a bondade de Walt e sua fábrica de sonhos conseguiram surpreendentemente abrandar o temperamento de Travers, reforçando ainda mais a generosidade e integridade do pai do Mickey.

Dirigido por John Lee Hancock (do indicado ao Oscar 2010 Um Sonho Possível, que premiou Sandra Bullock como melhor atriz), Walt nos Bastidores de Mary Poppins não é apenas um filme sobre a produção de uma obra eterna nem somente uma biografia de uma escritora, é também um filme sobre saudade, sonhos, perdão e superação. O título original Saving Mr. Banks não poderia ser mais adequado, pois, ao contrário da dura realidade vivida pela pequena “Ginty” de perder o pai tão cedo, o patriarca fictício Sr. Banks foi salvo por Mary Poppins, dando ao enredo um final feliz por meio da magia, especialidade de Walt Disney. É deveras estranho que o filme não tenha recebido mais indicações ao Oscar além de Melhor Trilha Sonora, assinada por Thomas Newman, que também compôs para filmes como À Espera de um Milagre (1999), Procurando Nemo (2003) e 007 - Operação Skyfall (2012). Emma Thompson e Tom Hanks mereciam ser indicados por suas excelentes atuações, assim como o longa merecia um lugar entre os indicados a Melhor Filme e Melhor Figurino, como ocorreu no BAFTA.



Por fim, Walt nos Bastidores de Mary Poppins é uma linda homenagem a uma autora, a um clássico eterno - merecedor das 13 indicações ao Oscar que recebeu na época, tendo vencido em 5 categorias - com músicas e personagens inesquecíveis que encantaram e continuam encantando diversas gerações, ao cinema e, claro, ao homem que tornou esse sucesso possível. É um filme essencial aos fãs de Mary Poppins e cinéfilos. O que mais se pode dizer? Supercalifragilisticexpialidocious!


*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks)

Austrália/EUA/Reino Unido - 2013. 125 minutos.

Direção: John Lee Hancock

Com: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Paul Giamatti, Ruth Wilson, Rachel Griffiths, B.J. Novak, Jason Schwartzman e Kathy Baker.


Nota: 5

segunda-feira, 3 de março de 2014

Oscar 2014

A cerimônia do Oscar deste ano foi memorável por vários motivos. Vestidos belíssimos passeando pelo tapete vermelho e subindo ao palco, Ellen DeGeneres divertindo a noite com piadas, pizzas e o selfie mais famoso do mundo, e muita justiça nas premiações. Com 7 estatuetas, Gravidade foi o grande vencedor da noite, enquanto 12 Anos de Escravidão e Clube de Compras Dallas saíram cada um com 3 estatuetas da festa. O maior indicado da noite Trapaça saiu de mãos vazias, assim como Nebraska, O Lobo de Wall Street, Philomena e Capitão Phillips. Como não poderia deixar de ser, o belíssimo A Grande Beleza levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O favorito Frozen ganhou em duas categorias: filme de animação e canção original. Minha canção favorita era "Happy", de Pharrell Williams, do filme Meu Malvado Favorito 2, mas o prêmio mais injusto da noite foi de Trilha Sonora para Gravidade em vez de para Walt nos Bastidores de Mary Poppins. O prêmio de Melhor Ator ficou com Matthew McConaughey e Leonardo DiCaprio mais uma vez saiu de mãos abanando – poor Leo. Cate Blanchett levou Melhor Atriz e Jared Leto levou Melhor Atroz Coadjuvante, como todos já sabiam, e Lupita Nyong’o, merecidamente, ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante.

Confiram abaixo a lista completa dos indicados e dos vencedores (em negrito) do Oscar 2014:

MELHOR FILME
Trapaça
Capitão Phillips
Clube de Compras Dallas
Gravidade
Ela
Nebraska
Philomena
12 Anos de Escravidão
O Lobo de Wall Street


MELHOR ATOR
Christian Bale, por Trapaça
Bruce Dern, por Nebraska
Leonardo DiCaprio, por O Lobo de Wall Street
Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão
Matthew McConaughey, por Clube de Compras Dallas



MELHOR ATRIZ
Amy Adams, por Trapaça
Cate Blanchett, por Blue Jasmine
Sandra Bullock, por Gravidade
Judi Dench, por Philomena
Meryl Streep, por Álbum de Família



MELHOR DIRETOR
David O. Russell, por Trapaça
Alfonso Cuarón, por Gravidade
Alexander Payne, por Nebraska
Steve McQueen, por 12 Anos de Escravidão
Martin Scorsese, por O Lobo de Wall Street



MELHOR ATOR COADJUVANTE
Barkhad Abdi, por Capitão Phillips
Bradley Cooper, por Trapaça
Michael Fassbender, por 12 Anos de Escravidão
Jonah Hill, por O Lobo de Wall Street
Jared Leto, por Clube de Compras Dallas



MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Sally Hawkins, por Blues Jasmine
Jennifer Lawrence, por Trapaça
Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidão
Julia Roberts, por Álbum de Família
June Squibb, por Nebraska



MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Antes da Meia-Noite (Richard Linklater, Julie Delpy, Ethan Hawke)
Capitão Phillips (Billy Ray)
Philomena (Steve Coogan e Jeff Pope)
12 anos de Escravidão (John Ridley)
O Lobo de Wall Street (Terence Winter)



MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Trapaça (Eric Warren Singer e David O. Russell)
Blue Jasmine (Woody Allen)
Clube de Compras Dallas (Craig Borten & Melisa Wallack)
Ela (Spike Jonze)
Nebraska (Bob Nelson)



MELHOR ANIMAÇÃO
Os Croods
Meu Malvado Favorito 2
Frozen – Uma Aventura Congelante
Vidas Ao Vento
Ernest & Celestine



MELHOR FOTOGRAFIA
O Grande Mestre (Philippe Le Sourd)
Gravidade (Emmanuel Lubezki)
Inside LLewyn Davis (Bruno Delbonnel)
Nebraska (Phedon Papamichael)
Os Suspeitos (Roger A. Deakins)



MELHOR FIGURINO
Trapaça (Michael Wilkinson)
O Grande Mestre (William Chang Suk Ping)
O Grande Gatsby (Catherine Martin)
The Invisible Woman (Michael O’Connor)
12 Anos de Escravidão (Patricia Norris)


MELHOR DOCUMENTÁRIO
O Ato de Matar (Joshua Oppenheimer e Signe Byrge Sørensen)
Cutie and the Boxer (Zachary Heinzerling e Lydia Dean Pilcher)
Dirty Wars (Richard Rowley e Jeremy Scahill)
The Square (Jehane Noujaim e Karim Amer)
A Um Passo do Estrelato



MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
Cavedigger (Jeffrey Karoff)
Facing Fear (Jason Cohen)
Karama Has No Walls (Sara Ishaq)
The Lady In Number 6: Music Saved My Life (Malcolm Clarke e Nicholas Reed)
Prison Terminal: The Last Days of Private Jack Hall (Edgar Barens)



MELHOR MONTAGEM
Trapaça (Jay Cassidy, Crispin Struthers e Alan Baumgarten)
Capitão Phillips (Christopher Rouse)
Clube de Compras Dallas (John Mac McMurphy e Martin Pensa)
Gravidade (Alfonso Cuarón e Mark Sanger)
12 Anos de Escravidão (Joe Walker)

MELHOR FILME DE LÍNGUA ESTRANGEIRA
Broken circle Breakdown (Bélgica)
A Grande Beleza (Itália)
A Caça (Dinamarca)
The Missing Picture (Cambodja)
Omar (Palestina)


MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADO
Clube de Compras Dallas (Adruitha Lee e Robin Mathews)
Vovô Sem Vergonha (Stephen Prouty)
O Cavaleiro Solitário (Joel Harlow e Gloria Pasqua-Casny)



MELHOR TRILHA SONORA
A Menina Que Roubava Livros (John Williams)
Gravidade (Steven Price)
Ela (William Butler e Owen Pallett)
Philomena (Alexandre Desplat)
Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Thomas Newman)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Alone yet not Alone, de Alone Yet Not Alone (Bruce Broughton)
Happy, de Meu Malvado Favorito 2 (Pharrell Williams)
Let it Go, de Frozen – Uma Aventura Congelante (Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez)
The Moon Song, de Ela (Karen O)
Ordinary Love, de Mandela: Long Walk to Freedom (U2)



MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Trapaça (Judy Becker e Heather Loeffler)
Gravidade (Andy Nicholson, Rosie Goodwin e Joanne Woollard)
O Grande Gatsby (Catherine Martin e Beverley Dunn)
Ela (K.K. Barrett e Gene Serdena)
12 Anos de Escravidão (Adam Stockhausen e Alice Baker)


MELHOR ANIMAÇÃO DE CURTA-METRAGEM
Feral (Daniel Sousa e Dan Golden)
Get A Horse!
(Lauren MacMullan e Dorothy McKim)
Mr. Hublot (Laurent Witz e Alexandre Espigares)
Possessions (Shuhei Morita)
Room on the Broom (Max Lang e Jan Lachauer)



MELHOR FILME DE CURTA-METRAGEM
Aquel No Era Yo (That Wasn’t Me) (Esteban Crespo)
Avant Que De Tout Perdre (Just before Losing Everything) (Xavier Legrand e Alexandre Gavras)
Helium (Anders Walter e Kim Magnusson)
Pitääkö Mun Kaikki Hoitaa? (Do I Have to Take Care of Everything?) Selma Vilhunen e Kirsikka Saari)
The Voorman Problem (Mark Gill e Baldwin Li)



MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Tudo Está Perdido (Steve Boeddeker e Richard Hymns)
Capitão Phillips (Oliver Tarney)
Gravidade (Glenn Freemantle)
O Hobbit: A Desolação de Smaug (Brent Burge)
Lone Survivor (Wylie Stateman)

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Capitão Phillips (Chris Burdon, Mark Taylor, Mike Prestwood Smith e Chris Munro)
Gravidade (Skip Lievsay, Niv Adiri, Christopher Benstead e Chris Munro)
O Hobbit: A Desolação de Smaug (Christopher Boyes, Michael Hedges, Michael Semanick e Tony Johnson)
Inside Llewyn Davis (Skip Lievsay, Greg Orloff e Peter F. Kurland)
Lone Survivor (Andy Koyama, Beau Borders e David Brownlow)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Gravidade
O Hobbit: A Desolação de Smaug
Homem de Ferro 3
O Cavaleiro Solitário
Além da Escuridão – Star Trek



É claro que eu não poderia deixar de fora os momentos mais marcantes da cerimônia:
A impagável distribuição de pizzas em pratinhos de plástico

O tão comentado selfie que entrou para a história

Os grandes e merecidos vencedores da noite


O photobomb de Benedict Cumberbatch 
O photobomb do Jared Leto com a Anne Hathaway na festa pós-Oscar

As caras e bocas e o tombo no tapete vermelho de Jennifer Lawrance

As homenagens póstumas, com a surpreendente lembrança do brasileiro Eduardo Coutinho, mas o esquecimento do diretor Alain Resnais.

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