sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Jovem Aloucada

Num cenário cinematográfico em que surgem cada vez mais filmes que abordam e celebram a liberdade sexual, seja ela hetero, homo ou bissexual – vide os mais atuais Ninfomaníaca, Azul É a Cor Mais Quente, Além da Fronteira, Um Estranho no Lago e Tatuagem –, a comédia dramática chilena Jovem Aloucada veio para somar. Inspirada em uma personagem real, Daniela (Alicia Rodriguez) é uma menina de 17 anos prestes a fazer vestibular que teve uma rígida criação evangélica e, como toda adolescente, está descobrindo a sua sexualidade. Para narrar episódios de sua vida e compartilhar suas dúvidas, reflexões e aventuras sexuais, ela cria o blog Joven y Alocada (que dá o nome ao título original do filme). Após ser expulsa do colégio por fazer sexo com um colega, Daniela é proibida de prestar vestibular e obrigada pela mãe a trabalhar numa emissora de televisão evangélica, onde conhece Thomas (Felipe Pinto) e Antônia (Maria Gracia Omegna), com quem desenvolve intensos relacionamentos que a deixam confusa, dividida e cheia de indagações sobre a vida.


Com uma linguagem moderna, repleta de muito humor, ironias, metáforas e comparações bíblicas com sexo, o filme é fragmentado em 12 capítulos de um todo, que Daniela nomeou ironicamente de “evangelho”, em forma de posts de blog. Os recursos de animação utilizados para representar alguns pontos de episódios eróticos de sua narração complementam a mesma de forma divertida.

Ao ganhar primeiramente o título em português de “As Aventuras de Uma Ninfomaníaca” para depois adotar a tradução do título original, houve um ideia equivocada sobre Jovem Aloucada, já que Daniela não é ninfomaníaca, é apenas uma jovem ardorosa como outra qualquer, explorando os prazeres e as possibilidades do sexo. Entretanto, é possível traçar similaridades entre Daniela e as personagens Joe (Ninfomaníaca, de Lars Von Trier) e Adèle (de Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche) – como Joe (Stacy Martin), Daniela descobriu ainda na infância sua sexualidade e nunca teve vergonha de experimentar; e como Adèle (Adèle Exarchopoulos), ela gostava tanto de carne quanto de queijo, metáfora que ouviu sobre bissexualidade uma vez no ônibus, e se sentia confusa em relação a seus sentimentos. E não é a primeira vez que a atriz Alicia Rodriguez participa de um triângulo amoroso bissexual na ficção: em Navidad (Sebastián Lelio, 2009), ela também foi objeto de desejo entre um menino e uma menina, mas desta vez um casal em crise.


Uma personagem-chave para entender o comportamento de Daniela é sua mãe Teresa, interpretada por Aline Kuppenheim, uma evangélica fervorosa e pudica que considera o sexo o pior pecado para uma mulher. Como citou Daniela, o principal mandamento da mãe é “não fornicarás”, ao invés de ser “não matarás” ou “amarás ao próximo como a ti mesmo”, tanto que cortou relações com sua filha mais velha e proibiu Daniela de vê-la quando ficou sabendo que ela transou com o namorado e casou-se com ele escondida. Teresa é uma mãe tão castradora que fez com que suas duas filhas crescessem com uma rebeldia latente que exteriorizou-se na adolescência em forma de desejo sexual intenso. É somente em sua tia Isabel (Ingrid Isensee), que está com câncer terminal, que Daniela encontra conforto e compreensão. Embora também seja evangélica, Isabel é o oposto de Teresa e não é cegamente presa às doutrinas da religião. O enredo levanta, ainda, assuntos como machismo (apenas Daniela foi expulsa do colégio e o menino com quem transou, não, porque “ela o tentou”) e hipocrisia, em especial a religiosa, questionada a todo momento por Daniela com boa dose de humor debochado, como na ótima cena em que ela entrevista, pela emissora, um crente convertido há pouco tempo.


Por sua competência, o roteiro co-escrito por Marialy Rivas, Camila Gutiérrez, Pedro Peirano e Sebastián Sepúlveda ganhou o prêmio de Melhor Roteiro de Ficção do Cinema Mundial e o prêmio Directors and Screenwriters Lab no Festival Sundance de Cinema em 2012. À frente da direção de seu primeiro longa-metragem, Rivas claramente não decepciona, conseguindo dar leveza a um filme que trata de assuntos polêmicos de forma corajosa e explícita. Fechando o filme com chave de ouro, temos a canção “Nah de Nah” de Javiera Mena (cover em espanhol de "Non, Je ne regrette rien", de Edith Piaf). No primeiro “evangelho” de sua vida, Daniela amadureceu. A Jovem Aloucada não se arrepende de nada.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Jovem Aloucada (Joven y Alocada)

Chile - 2012. 96 minutos.

Direção: Marialy Rivas

Com: Alicia Rodriguez, Aline Kuppenheim, Felipe Pinto, Maria Gracia Omegna, Ingrid Isensee e Andrea García-Huidobro.


Nota: 4

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Inch'Allah

Vencedor do prêmio da crítica (FIPRESCI) na mostra Panorama do Festival de Berlim 2013 (que este ano premiou o longa brasileiro Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro) e do prêmio do Júri ecumênico: Menção especial, Inch'Allah é um filme que mostra a visão estrangeira da cineasta Anaïs Barbeau-Lavalette através da personagem Chloé (Evelyne Brochu) sobre o eterno conflito no Oriente Médio. Situado na Cisjordânia nos dias atuais, o filme mostra o cotidiano da jovem médica obstetra que trabalha em Ramallah numa clínica improvisada da ONU e mora em Jerusalém, tendo a jovem militar israelense Ava (Sivan Levy) como sua vizinha e companheira de diversão esporádica em Tel Aviv. Chloé cria uma amizade com uma de suas pacientes gestantes, Rand (Sabrina Ouazani), cujo marido está preso e o irmão mais velho Faysal (Yousef Sweid) integra a resistência palestina, fazendo com que sua visão do conflito existente na região passe por uma mudança radical.


Entre suas idas e vindas pelo muro de separação, Chloé vê e participa de situações com as quais jamais imaginou ter contato; ela acaba se integrando à crise sem pertencer a nenhuma das duas nações. "Quem vive nos dois lados, não escolhe lado nenhum": é a partir desta frase dita por Faysal que tem início o drama interno de Chloé, que perdura durante todo o restante da trama. Assim como Bubble (Eytan Fox, 2006), Inch'Allah apresenta o drama vivido tanto por israelenses quanto por palestinos, porém dando foco a estes, que parecem sempre estar em desvantagem em relação ao inimigo. Yousef Sweid participa das duas películas e, coincidentemente, sofre morte na família e tem alguma relação com homens-bomba em ambas.


Acostumada a estar à frente de documentários, Barbeau-Lavalette dá um leve tom documental ao longa, mostrando uma realidade que não é inédita, mas que merece uma nova perspectiva. Com um roteiro coeso e uma direção competente de Barbeau-Lavalette e uma ótima produção pela dupla Luc Déry e Kim McCraw (dos excelentes Incêndios e O Que Traz Boas Novas), Inch'Allah nos faz sofrer junto com Chloé em sua tortuosa jornada de dúvidas e nos leva a continuar questionando a interminável guerra entre judeus e árabes. A cena final é de arrepiar.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Inch'Allah (Idem)

França / Canadá - 2012. 102 minutos.

Direção: Anaïs Barbeau-Lavalette

Com: Evelyne Brochu, Sabrina Ouazani, Sivan Levy e Yousef Sweid.


Nota: 4

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Entrevista com diretor e elenco de Quando Eu Era Vivo

No dia 29 de janeiro, o diretor Marco Dutra e os atores Marat Descartes, Gilda Nomacce, Tuna Dwek, Kiko Bertholini e Rony Koren estiveram em um cinema em Botafogo, no Rio de Janeiro, logo após a sessão para imprensa do filme Quando Eu Era Vivo, batendo um papo com os jornalistas presentes; e é claro que o Almanaque Virtual não poderia estar de fora.

Marco Dutra iniciou a entrevista falando sobre a escolha de Sandy Leah para interpretar Bruna. Ele diz ter tido certeza quase absoluta de que ela seria perfeita para o papel, com apenas 2% de dúvida quando pensava que as pessoas achariam estranho ela participar de um filme de terror. Contrariando as apostas da produção sobre Sandy aceitar a proposta, ela leu o roteiro em apenas um dia e adorou a história, tendo aceitado rapidamente o convite para atuar. Por ter sido fã de Sandy na infância, Dutra afirma que havia uma relação emocional com a cantora e que o mesmo acontecia com o personagem Júnior em relação à mãe, Olga, o que fez com que sua aposta de assertividade fosse ainda maior com relação a esta parceria. Sobre a escalação de Antônio Fagundes para interpretar o personagem Sênior, Dutra conta que foi um acaso do destino, pois o ator leu o livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, no qual o filme é baseado, gosta muito do autor Lourenço Mutarelli e encontrou sua esposa Lucimar numa livraria, lhe transmitindo o quanto gostou do livro. Lucimar comentou com seu marido, que comentou com Rodrigo Teixeira, que é o produtor de Quando Eu Era Vivo. Assim, quando a ideia pôde sair do papel, em 2011, e Teixeira chamou Dutra para dirigir o longa, já era quase certo que Fagundes teria o papel, como ele mesmo sugeriu que gostaria.

A filmagem ocorreu no fim de 2012 e durou 18 dias, com o “milagre” do plano de filmagem feito pelo assistente de direção Daniel Chaia, como brincou Dutra, já que tanto Fagundes quanto Marat estavam com projetos paralelos no período, que complicavam o tempo de filmagem.


Como fã de filmes de terror (e também de filmes de gênero no geral, pessoalmente e como ferramentas), ele e sua parceira desde a faculdade Juliana Rojas sempre cultivaram o desejo de realizar um longa-metragem de terror. “Quando começamos a fazer filmes, estudar, entender, vimos que o certo não é partir da fórmula, não é partir do ‘quero fazer um filme de terror’; e sim entender sobre o que você quer falar, os assuntos, o universo, o tema, os personagens, a estrutura, e deixar as coisas nascerem do conteúdo do filme, para depois vir a forma. O que aconteceu com esse filme, especificamente, é que ele é uma adaptação do livro do Mutarelli, que é um livro muito perturbador, muito complexo da relação de um pai com o filho. Não é um livro de terror. A lógica dos gêneros literários é outra. Quando fizemos a adaptação com a Gabriela Amaral Almeida, que é a co-roteirista, começamos a ver que as ferramentas do cinema de suspense eram ideais para abordar a tensão da relação desses dois, e aí virou um filme que usa essas ferramentas”, afirma. Sobre as referências utilizadas para a criação do roteiro, Dutra declara que não usou nenhuma específica e que o roteiro foi fruto de um profundo estudo do livro de Lourenço Mutarelli. A direção de arte e de fotografia trouxeram algumas referências para as reuniões de pré-produção para “aquecer”, como diz Dutra, porém as ideias foram abandonadas depois disso para que Quando Eu Era Vivo tivesse sua própria identidade, sem ter conexão com outras obras. Dutra confessa que Síndrome de Caim (1992) e Vestida Para Matar (1980), de Brian De Palma, foram utilizados nessas reuniões para entendimento de seus mecanismos, mas não para serem copiados de alguma forma. Marat Descartes, por sua vez, diz que logo que Dutra lhe falou um pouco sobre o roteiro, lhe veio à mente imagens de O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, e do protagonista Jack Torrance (vivido por Jack Nicholson), devido ao fato de ambos os filmes possuírem pontos de contato - a situação de confinamento e o processo de loucura. Dutra ainda completa que a diretora de arte Luana Demange (que foi cenógrafa no seu primeiro projeto para o cinema, Trabalhar Cansa) trouxe inspirações de um personagem do diretor Aki Kaurismäki de um filme dos anos 80 (provavelmente Ariel, de 1988, mas não se recordou do nome na hora) para a composição de Júnior, personagem de Marat.


Logo que começaram a escrever o roteiro, cruzando a ponte entre linguagem literária e cinematográfica, Gabriela e Dutra perceberam que a personagem Bruna, que no livro de Mutarelli era estudante de artes plásticas, precisaria ser estudante de música para cumprir melhor o seu papel de mediadora utilizando a voz, e não desenhando, como na obra original. A música seria algo muito importante para o filme. Dutra (que também é músico) explica que fez uma parceria com os produtores musicais Guilherme Garbato e Gustavo Garbato para compor a canção que a mãe de Júnior, interpretada por Helena Albergaria, deixou para ele em forma de partitura e que ela deveria ter, ao mesmo tempo, um tom macabro e de música de ninar.

Junto com Marat e Dutra, Tuna Dwek comenta a marcante cena em que sua personagem Lurdinha apanha de Júnior. Ela diz que, por ser uma cena que divide o filme, precisava ser muito bem feita de primeira, para não comprometer a continuidade e passar verdade para o público. Por isso, foi ensaiada diversas vezes milimetricamente. Dutra ainda comentou sobre a importância dos personagens ditos coadjuvantes, que são essenciais para a trama. Como exemplo, ele citou o personagem Paulinho, vivido por Rony Koren, que, em apenas duas cenas, é um termômetro da mudança de Bruna ao longo da história; a personagem Miranda, interpretada por Gilda Nomacce, que marca a transformação do apartamento onde se passa a maior parte do filme, e o personagem Pedro, irmão de Júnior, representado por Kiko Bertholini, que aparece em uma única cena, mas que é essencial para o filme e o prepara o clímax final.


Ao ser questionado sobre o fato de ser considerado pelo jornal O Globo como a nova cara do cinema de suspense nacional, Dutra se diz feliz, mas que não se sente envaidecido por isso. Ele diz gostar do gênero e que sempre achou estranha a falta de classificação dos filmes brasileiros nas vídeo-locadoras, sendo sempre catalogados apenas como nacionais. Dutra considera que os gêneros podem ajudar a diversificar a produção, acabando com o rótulo de que cinema nacional é do gênero nacional, que os filmes têm diferença de abordagem, estéticas e de proposta entre si, além de conseguir acessar lugares específicos, conferindo significado às películas. Não por coincidência, seus dois próximos filmes serão de terror – Boas Maneiras, mais uma vez em parceria com Juliana Rojas, e outro projeto envolvendo vampiros, ainda bem no início, com a produtora RT Features, mesma de seu atual trabalho. Entretanto, sua grande aspiração é criar um musical, outro gênero que aprecia muito.

Quando Eu Era Vivo está em cartaz em 22 salas do Brasil. Vale a pena conferir o trabalho desse talentoso cineasta de apenas 33 anos.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Quando Eu Era Vivo

 Para mudar o cenário insuficientemente explorado, pouco criativo e estagnado do gênero de terror do cinema nacional – dominado por José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, nome do personagem de À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963) que lhe deu fama –, eis que surge Marco Dutra com seu primeiro longa-metragem (em parceria com Juliana Rojas): o terror psicológico Trabalhar Cansa, vencedor do prêmio especial do júri e de melhor som no Festival de Paulínia de 2011 e concorrente na seção Un Certain Regard no Festival de Cannes do mesmo ano. Seu segundo trabalho para o cinema, Quando Eu Era Vivo, não deixa nada a desejar ao antecessor. Pelo contrário: a competência de Dutra na direção e no roteiro é reforçada. Baseado no livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, de Lourenço Mutarelli (que faz uma rápida aparição no filme como Donato), o filme conta a história de Júnior (o ótimo Marat Descartes), um homem recém-separado e desempregado que volta a morar com o pai depois de anos, ocupando seu sofá enquanto a estudante de música Bruna (Sandy Leah), a nova inquilina de Sênior (Antônio Fagundes), ocupa seu antigo quarto. Ao encontrar antigos objetos da falecida mãe, Júnior começa a desenvolver uma obsessão pelo passado e por assuntos sombrios que alimentam muito mais do que uma simples nostalgia.


O filme é introduzido pelo som de flauta doce, uma composição de suspense, e entrelaçados de costura que vão aos poucos formando uma imagem que, mais tarde, descobrimos ser de um antigo quadro feito de tapete da mãe de Júnior. Ele decide arrumar o quartinho para lá se instalar, mesmo contra a vontade do pai, e acaba encontrando os objetos antigos da mãe que trazem à tona lembranças de sua infância. Surgem, então, cenas de Júnior e seu irmão Pedro quando crianças, interpretados por Carlos Albergaria e Marc Libeskind, com a mãe Olga em estranhas situações, para dizer o mínimo. É através da fita de vídeo encontrada por Júnior que o espectador tem o primeiro contato com um ritual ocultista feito por Olga envolvendo os filhos. Depois de ver a fita, Júnior transforma toda a sala ao que era há muitos anos com os bizarros objetos da mãe, instaurando um clima macabro na casa e no filme até o final. A descoberta de uma velha partitura da mãe, com um texto atrás que parece um anagrama, acentua ainda mais tal clima e direciona o restante do enredo. A visita que Júnior faz ao irmão Pedro (vivido por Kiko Bertholini) no manicômio sinaliza ao espectador qual será o fechamento da película.

A complicada relação entre pai e filho é brilhantemente interpretada por Marat Descartes como o soturno Júnior e pelo veterano Antônio Fagundes como o desconfiado Sênior. Desde o primeiro encontro, é possível perceber certo distanciamento e ressentimento latente entre ambos, que a mudança gradual no comportamento de Júnior agrava ainda mais. Por outro lado, Júnior se aproxima cada vez mais de Bruna, vivida por Sandy Leah, cujo papel é fundamental na trama. Sandy e Bruna são muito parecidas, já que a simpatia e dulcilidade da cantora foram preservadas na personagem – pode-se dizer que ela interpreta a si mesma, inclusive porque seu atributo vocal é importantíssimo para a evolução da narrativa. A figura de Sandy compõe também um dos paradoxos imagéticos do filme, pois meiguice e ocultismo são questões completamente contraditórias, assim como a placa pendurada na sala com os dizeres “Deus proteja este lar” e a imagem de Nossa Senhora Aparecida (dada a Sênior por Júnior) o são em relação aos livros e peças satanistas de Olga, interpretada por Helena Albergaria em sua segunda parceria com Marat Descartes e Marco Dutra (a primeira foi em Trabalhar Cansa).


Quando Eu Era Vivo não deixa nada a desejar a produções norte-americanas como o clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick, principal inspiração de Dutra e Marat, O Chamado (Gore Verbinski, 2002), A Chave Mestra (Iain Softley, 2005) ou Carrie, a Estranha (Brian De Palma, 1976). A obra de Dutra é competente em todos os sentidos e seu valor se eleva ainda mais pelo fato de ser uma produção de baixo orçamento. Além do excelente roteiro, em parceria com Gabriela Amaral Almeida, que conseguiu transformar um drama em um envolvente terror psicológico, a qualidade da trilha sonora (da qual Dutra participou da composição da música final), dos efeitos sonoros, da iluminação e da fotografia impressiona. A função como elementos indicadores de transformação no curso do plot é desempenhada de forma habilidosa e marcante em todos os momentos. Muito seguro de seu trabalho, Dutra nos brinda com uma interessante produção de gênero e prova que ainda há esperança para o cinema brasileiro.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Quando Eu Era Vivo

Brasil - 2014. 109 minutos.

Direção: Marco Dutra

Com: Antonio Fagundes, Marat Descartes, Sandy Leah, Gilda Nomacce, Kiko Bertholini, Helena Albergaria, Rony Koren, Tuna Dwek, Lourenço Mutarelli, Eduardo Gomes, Lilian Blanc, Carlos Albergaria e Marc Libeskind.


Nota: 5

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Grand Central

Histórias de amores proibidos e complicados sempre fazem sucesso no cinema, desde um namoro adolescente banido pelos pais a um caso com uma pessoa casada. O que mais envolve o público neste tipo de enredo é a intensidade e a excitação do amor e a entrega do casal apaixonado. Não é o caso de Grand Central, novo filme de Rebecca Zlotowski.

Gary é um jovem sem muita qualificação laboral que consegue um emprego na usina nuclear de uma cidade próxima. Ele se muda, começa a se enturmar com seus colegas de trabalho e se apaixona por Karole, esposa de um deles, Toni. A partir daí, Gary se expõe a cada vez mais perigos por esse amor, principalmente à contaminação radioativa. Na primeira reunião de vizinhos e colegas de trabalho, é cantarolada a música “Maladie d’amour”, cujo trecho “Maladie d’amour maladie de la jeunesse” (em português: “doença de amor, doença da juventude”) define todo o comportamento irresponsável que Gary tem por causa do amor que nasceu por Karole ao longo da trama. Quando o seu nível de radiação começa a alcançar o limite máximo permitido, Gary esconde seu dosímetro para poder continuar trabalhando na usina e estar perto de Karole, arriscando sua saúde e até a sua vida. Inconsequentemente, Gary não pensa em mais nada a não ser continuar encontrando Karole, pensa que a radiação não vai afetá-lo tanto por ser jovem. Doente de amor, doente de corpo.


Após dar vida à descolada pintora homossexual de cabelos azuis Emma em Azul é a Cor Mais Quente (Abdellatif Kechiche, 2013), Léa Seydoux interpreta a indecisa Karole em Grand Central, em sua segunda parceria com a diretora Rebecca Zlotowski. Com uma expressão blasé recorrente e falta de emoção, a força de Léa Seydoux empenhada para a personagem Karole não chega nem perto da competência desempenhada como Emma. O mesmo ocorre em Belle Épine (2010), primeiro longa da diretora; falta verdade em ambas as personagens. Talvez o nível de exigência de Zlotowski não seja muito alto, já que a mesma atriz brilhou na película de Kechiche e se envolveu em uma polêmica com o mesmo, pelo fato de este exigir incessantes repetições das cenas mais íntimas com Adèle Exarchopoulos. Tahar Rahim – que também está no elenco do filme O Passado (2013), do diretor Asghar Farhadi, cujo longa A Separação concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012 e ganhou vários outros prêmios – interpretou bem seu Gary, mas nada excepcional, assim como Denis Menochet e Olivier Gourmet nos papeis de Toni e Gilles, respectivamente.


Embora levante um tema interessante – o cotidiano de quem trabalha numa usina nuclear e os riscos da contaminação por radiação – Grand Central não consegue cativar o espectador. Não por seu ritmo lento, e sim pela falta de química entre o casal protagonista e a falta de verdade que a paixão de ambos transmite. Não há excitação nem intensidade no olhar e nos gestos de Gary e Karole, tudo é morno, até seus diálogos. Outro ponto contra são os clichês mal trabalhados, como o modo pela qual Toni descobre que foi traído por sua esposa e seu mais recente amigo. Como diz o jargão popular, “o corno é sempre o último é saber”. Ele finge não perceber, até que um fato o obriga a admitir que tem conhecimento do caso extraconjugal de sua amada.

É somente um detalhe, mas se você tem ouvidos sensíveis, sofre de vertigem ou labirintite, não assista a esse filme. O som do alarme de perigo da usina, disparado diversas vezes durante a película, é bem desagradável e pode ser ensurdecedor.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Grand Central (Idem)

França - 2013. 96 minutos.

Direção: Rebecca Zlotowski

Com: Tahar Rahim, Léa Seydoux, Denis Menochet e Olivier Gourmet.

Nota: 2

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Uma Estranha Amizade

Sob o título original Starlet, o filme Uma Estranha Amizade foi um dos representantes do cinema alternativo estadunidense no Festival do Rio de 2012, assim como Electrick Children (Rebecca Thomas, 2012), A Irmã da Sua Irmã (Lynn Shelton, 2011) e Deixe a Luz Acesa (Ira Sachs, 2012).

A trama de Uma Estranha Amizade se passa numa pequena cidade dos Estados Unidos, onde é comum as pessoas colocarem pertences que não querem mais disponíveis para compra. Sadie, uma senhora de 85 anos, monta uma venda de jardim em frente à sua casa, onde Jane, uma jovem de 21 anos, compra um dos objetos que descobre posteriormente estar cheio de dinheiro escondido. Tal descoberta faz com que se crie um dilema na consciência de Jane sobre devolver ou não o dinheiro à verdadeira dona. Ela, então, decide se aproximar de Sadie e ajudá-la em suas atividades cotidianas, como fazer compras e ir ao bingo. No início, a aproximação é um pouco complicada, já que Sadie não dá muita abertura à Jane, mas logo se transforma numa bela amizade em que a grande diferença de idade não importa, mas sim os pontos em comum – a solidão e o vazio sentidos por Jane e Sadie, muito bem interpretadas por Dree Hemingway (bisneta de Ernest Hemingway), em seu quarto papel no cinema, e Besedka Johnson, em seu primeiro e único papel (ela faleceu este ano, um ano depois do lançamento do longa). Enquanto Jane aprofunda sua relação com Sadie, ainda precisa lidar com sua amiga desequilibrada e esconder o seu modo de ganhar a vida, que pode afastar sua amiga mais recente.


À medida que se aproximam, Sadie e Jane passam a se conhecer melhor e descobrem semelhanças entre si, surgindo assim uma sintonia e confiança mútuas entre as duas. As revelações que uma faz à outra sobre seus respectivos passados criam uma maior conexão não só entre as personagens como também entre o público e as mesmas, assim como em Lições de Vida (Jeremy Brock, 2006) e Lembranças de um Verão (Scott Hicks, 2001). Embora não haja pitadas de comédia como nos filmes citados anteriormente e sua narrativa seja mais lenta, Uma Estranha Amizade possui Starlet, o chihuahua de estimação de Jane que dá nome à película e que arranca alguns “owns” da plateia por sua graciosidade. O cãozinho é inicialmente recusado pela nova amiga de sua dona, mas faz o coração de Sadie se derreter aos poucos. Afinal, como não simpatizar com Starlet?


Em seu primeiro trabalho como diretor e roteirista, Sean Baker construiu uma história sensível e humana sobre amizade, solidão e casualidade. O título em português conferiria maior sentido ao filme caso o termo “estranha” fosse substituído por “inesperada”, pois nenhuma das duas personagens esperava construir uma amizade como a que foi construída, porém não há nada de estranho no fato, e sim, beleza e delicadeza. A cena final fecha o filme de forma sensivelmente sutil e explica a rigidez de Sadie; não poderia ser melhor.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Uma Estranha Amizade (Starlet)

EUA - 2012. 90 minutos.

Direção: Sean Baker

Com: Dree Hemingway, Besedka Johnson e Stella Maeve.


Nota: 3

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