sábado, 25 de janeiro de 2014

Pais e Filhos

O conceito de família é extremamente subjetivo, ainda mais nos dias de hoje em que cada vez mais surgem diferentes e interessantes novos modelos familiares. Não há como afirmar que “essa” ou “aquela” é ou não é uma família; tudo pode sê-lo, como prova a família formada por um peculiar grupo de sem-teto em MicMacs - Um Plano Complicado (Jean-Pierre Jeunet, 2010). No entanto, quando o assunto envolve ligações sanguíneas e afetivas, entram as complicações, pois tanto um laço de sangue quanto um laço de afeto não podem ser rompidos com a mesma facilidade que uma tesoura rompe laços de seda ou de cetim.

Vencedor do Prêmio do Júri Oficial e do Júri Ecumênico do Festival de Cannes 2013 (já concorreu também com Tão Distante, em 2001, e Ninguém Pode Saber, em 2004) e eleito pelo público como Melhor Filme da 37ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo, o emocionante drama japonês Pais e Filhos tem como questão central a importância e a diferença entre os laços familiares de sangue e de convivência. Após seis anos, dois casais com situações sociais bem destoantes descobrem que tiveram seus filhos trocados na maternidade e que um está criando o filho do outro, instaurando uma crise na vida de todos os envolvidos, principalmente na de Ryota, que passa a analisar o seu papel como pai. Os fatores emocionais que a troca envolve e qual a melhor maneira de lidar com a insólita situação é o que o diretor e roteirista Hirokazu Koreeda nos propõe ao colocar em evidência um fato que ocorria com frequência no Japão nos anos 60 e 70, como é citado logo no início do filme pelos representantes do hospital onde houve a tal troca.


A troca de bebês em Pais e Filhos aconteceu de forma semelhante que no longa Os Filhos da Meia-Noite (Deepa Mehta, 2012) – o ato criminoso foi cometido pelo mesmo tipo de personagem e o bebê de família mais humilde foi criado pela família com mais posses e vice-versa. O ponto chave entre os dois casos é que no primeiro a troca foi descoberta quando os filhos ainda eram crianças e no segundo, quando já eram adultos. Enquanto no longa japonês o hospital aconselhou o casal a fazer um câmbio de filhos o mais rápido possível, no filme de Mehta isto já não era mais executável devido à idade dos jovens. Outro fato comum entre os dois filmes é que as mães da família rica continuam considerando o filho de criação como seu filho verdadeiro, já os pais os rejeitam, porém de formas diferentes. A discussão na obra de Koreeda é muito mais profunda e levanta diversas outras questões, como a transferência dos pais com relação aos filhos serem do modo como gostariam para atender às suas expectativas, a importância do dinheiro para a felicidade familiar, a demonstração de afeto dos pais para com seus filhos e o modo de criação dos mesmos. Todas questões clichês, mas tratadas de maneira belíssima e delicada.

O filme começa com uma entrevista do colégio em que Ryota e Midori pretendem matricular Keita. Logo na primeira cena, já há indícios de que Ryota não sente ter afinidades com o filho. Ao saber que Keita não é seu filho biológico, Ryota inevitavelmente começa a fazer comparações entre eles, a fim de encontrar algumas semelhanças, mas a falta delas acaba criando um abismo ainda maior entre pai e filho. Antes de tomar qualquer decisão definitiva, os dois casais decidem se conhecer melhor e conviver entre si, com ambos os meninos. A partir daí, tem início um interessante jogo de contrastes entre as duas famílias proposto por Koreeda, através de diálogos e, principalmente, através de imagens. Yudai (Lily Franky) e Yukari Saiki (Yoko Maki) são um casal humilde que mora nos fundos de uma loja de ferramentas da qual são donos e possui 3 filhos, incluindo Ryusei, o mais velho que foi trocado na maternidade. Apesar das dificuldades financeiras, dão muito amor a seus filhos e são felizes à sua maneira. Já Ryota (interpretado pelo ator e cantor pop japonês Masaharu Fukuyama) e Midori Nonomiya (Machiko Ono) são um casal rico, cujo chefe de família é um ocupado empresário que não nunca deu atenção ao único filho Keita (Keita Nonomiya) e quase não fica em casa.


Like Father, Like Son (no original) não é o primeiro filme de Hirokazu Koreeda que trata de assuntos de família. Seus antecessores Maborosi, a Luz da Ilusão (1995), Ninguém Pode Saber (2004) e O Que Eu Mais Desejo (2011) também são ótimos filmes, intensos e tocantes, cada um a seu modo. Entretanto, é o primeiro a questionar o papel do pai tão profundamente. As cenas mais marcantes do longa envolvem mudanças de atitude de Ryota. Yudai chama a atenção de Ryota para o fato de ele estar passando mais tempo com Keita nas últimas semanas que seu pai de criação, fazendo com que Ryota comece a refletir melhor sobre suas atitudes como pai. A reviravolta na trama acontece no final do filme, quando Ryota vê fotos suas na câmera, tiradas por Keita de vários ângulos, sem que ele percebesse e sempre distantes. O desfecho não poderia ser mais sublime. Koreeda continua se mostrando um mestre do cinema de sensibilidade ímpar.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Pais e Filhos (Like Father, Like Son)

Japão - 2012. 120 minutos.

Direção: Hirokazu Koreeda

Com: Isao Natsuyagi, Jun Fubuki, Jun Kunimura, Kirin Kiki, Lily Franky, Machiko Ono, Masaharu Fukuyama e Yoko Maki.


Nota: 5

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Feito Gente Grande

Ah, a infância... A época que dizem ser a melhor da vida! Sem compromissos, sem obrigações, sem preocupações, sem problemas... Só não é bem assim, não é? A infância é uma fase complicada da vida em alguns aspectos, de crescimento, amadurecimento e muitas descobertas – só perde para a adolescência. Muito se engana quem pensa que a infância é feita apenas de diversão. É nela que surgem os maiores traumas, que um adulto pode levar para o resto da vida, amizades e momentos inesquecíveis e aprendizados que serão levados para sempre. Tudo isso e mais é o que a pequena Rachel, uma menina solitária, tímida e sem amigos verdadeiros que acaba de completar 9 anos, aprendeu em pouco tempo ao conhecer Valérie, uma menina dita “intrépida” pelos rígidos porém amorosos pais de Rachel em Feito Gente Grande.


Enquanto Rachel vive em meio à crise no casamento dos pais e da divisão de quarto com sua vó, Valérie mora com sua mãe solteira e seu desbocado irmão mais velho, por quem Rachel tem uma paixonite. A amizade de Rachel e Valérie acaba por criar outra amizade: a de Michel (Denis Podalydès) e Catherine (Isabelle Carré), o calmo pai de Rachel e a bela mãe de Valérie, deixando Colette (Agnès Jaoui), a mãe de Rachel, insegura. Embora tenham situações familiares bem distintas, Rachel e Valérie desenvolvem um forte laço, mesmo contra a vontade inicial de Colette, e fazem muitas descobertas juntas, incluindo o caso de sua professora com outro professor em um ato impróprio no banheiro da escola. É Valérie que tira Rachel de dentro de sua casca, que lhe ensina expressões de baixo calão aprendidas com o irmão e a se divertir, curtir a vida, negociar com as colegas e a espionar. Se fossem mais velhas, Rachel e Valérie seriam, respectivamente, Ruth Jamison (Mary-Louise Parker) e Idgie Threadgoode (Mary Stuart Masterson) da emocionante obra americana Tomates Verdes Fritos (Jon Avnet, 1991).


Em seu segundo filme para o cinema (antes dirigiu dois curtas - L'aîné de mes soucis e Les baisers des autres), Carine Tardieu dá um presente ao público com uma história leve, divertida e emocionante sobre família e amizade. Seu primeiro longa, A Cabeça de Mamãe (2007), também retrata situações familiares, mas com a adição de um romance à trama. Em Feito Gente Grande, Tardieu dá foco à alegria compartilhada entre amigos e às mudanças que pequenos gestos, como reformar uma cozinha, podem significar na vida de uma pessoa. A atuação das atrizes mirins Juliette Gombert e Anna Lemarchand é o ponto mais forte do filme, que conta ainda com a participação especial de Isabella Rossellini como psicóloga de Rachel, cuja ingenuidade em certos momentos da trama é encantadora. Com um final marcante, há ainda a lição do crescimento causado pelo dor da perda, seguido pela superação, como em Ponte para Terabítia (Gabor Csupo, 2007), outro filme com uma bonita história de amizade entre duas crianças, Jess Aarons (Josh Hutcherson) e Leslie Burke (AnnaSophia Robb). Du vent dans mes mollets (no original) nos mostra a beleza e o sofrimento de crescer e amadurecer, de ganhar e perder, no melhor estilo francês. 89 minutos de diversão, emoção e nostalgia.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Feito Gente Grande (Du vent dans mes mollets)

França - 2011. 89 minutos.

Direção: Carine Tardieu

Com: Agnès Jaoui, Isabelle Carré, Isabella Rossellini, Denis Podalydès, Juliette Gombert e Anna Lemarchand.


Nota: 4

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A Grande Beleza

Em 2011, o diretor italiano Paolo Sorrentino teve sua primeira experiência na direção e roteiro de um filme todo falado em inglês, intitulado Aqui é o Meu Lugar. Tendo o ex-astro do rock cinquentão Cheyenne, interpretado por Sean Penn, como protagonista, Sorrentino conta uma história de nostalgia, incertezas, reflexão sobre a vida e a morte e recomeço que lhe rendeu o Prêmio Ecumênico do Júri no Festival de Cannes e uma indicação à Palma de Ouro também no Festival de Cannes em 2011. Depois de tratar de assuntos complexos e filosóficos no original This Must be the Place, Sorrentino decidiu dar vida a um enredo que aprofunda ainda mais essas e outras questões, e o melhor: em suas bellas língua e terra natais. Com estreia anterior no Festival do Rio 2013, chegou aos telões brasileiros esta semana A Grande Beleza, uma verdadeira obra-prima de Sorrentino, que conta a história de Jep Gambardella, um rico jornalista que acaba de completar 65 anos e começa a refletir sobre seu estilo de vida vazio e luxuoso após saber da morte de um grande amor do passado. Assim como Cheyenne, Jep observa a sua própria vida e a vida a seu redor, o mundo como um todo, simultaneamente de maneira séria e irônica. A autenticidade rege a vida de ambos os personagens. Afinal, quando é necessário levar a vida a sério?


O filme se inicia com uma propícia citação sobre a vida e seu fim. Em meio a belíssimos monumentos de Roma, um turista oriental morre repentinamente no instante em que decide tirar uma foto em frente à famosa Fontana di Trevi, cenário de uma das mais bonitas e inesquecíveis cenas da história do cinema, protagonizada por Marcello Mastroianni e Anita Ekberg em La Dolce Vita, de Federico Fellini. A música de fundo é celestial, com um lindo coral feminino, demonstrando a beleza e a finitude da vida e durando até o final da cena, quando há um corte brusco para uma opulenta festa animadíssima, regada a música eletrônica, muita bebida e libertinagem, que lembra as pomposas festas da mansão de Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio) em O Grande Gatsby (2013) de Baz Luhrmann. Depois de alguns minutos, o espectador percebe que é a festa de 65 anos de Jep, causando um estranhamento inicial por conta da incompatibilidade entre o estilo da festa e a idade do aniversariante. No dia seguinte a sua festa, desperta em Jep um sentimento de velhice perante o mundo e a juventude atual que não consegue compreender; ele se sente velho e perdido. É aí então que começa a refletir profundamente sobre sua vida e o modo como a vem levando há tantos anos. Muitas conversas com a sua chefe anã e com seus amigos em reuniões habituais em sua luxuosa cobertura se sucedem, além de eventuais encontros com novas pessoas em excêntricas exposições de arte. Jep sempre é questionado sobre os motivos pelos quais não escreveu outro livro depois do sucesso de seu único romance “O Aparelho Humano”, e ele não tem uma resposta concreta, talvez porque nunca tenha parado para pensar nisso antes. Ao ser provocado por sua amiga Stefania (Galatea Ranzi) em uma destas reuniões sobre o tema hipocrisia humana, Jep utiliza a sinceridade extrema e a ironia mordaz para responder à altura, deixando todos perplexos, principalmente a atingida; e voilà uma das cenas mais perspicazes do longa.

Durante todo o filme, a água do mar (ou a piscina em uma cena específica) aparece em momentos pontuais, sempre simbolizando a proximidade de uma grande mudança na vida de Jep. A água do mar representa não só a calma e o infinito como também o lugar onde Jep teve sua inesquecível primeira vez com seu primeiro amor de adolescência, que ficou sabendo amá-lo por toda a vida após sua morte, anunciada por seu ex-marido viúvo. Assim, Jep relembra o passado com carinho, sente vontade de mudar o seu presente e até de escrever um novo livro, só não sabe como escrever sobre o nada.


Ao visitar um antigo amigo que não vê há 30 anos, Jep conhece sua filha Ramona (Sabrina Ferilli), uma stripper quarentona pela qual se interessa e tenta começar uma relação. Uma das cenas mais marcantes do filme é a que Jep explica as regras de etiqueta num enterro de forma descontraída para Ramona enquanto esta experimenta vários vestidos para acompanhá-lo em um. A cena seguinte, do velório e enterro do filho de sua amiga, complementa a anterior e diverte o público pela clara execução das regras citadas por Jep. Outra cena que merece destaque é a cena do jantar organizado na casa de Jep para Irmã Maria (Giusi Merli), que é fã do livro de seu anfitrião. Em uma conversa a sós com Jep, a freira lhe diz que só se alimenta de raízes “porque raízes são importantes” e esta curtíssima frase tocou Jep tão profundamente que ele foi em busca de suas próprias.

Com cenários maravilhosos de Roma, excelentes diálogos, personagens interessantes e uma trilha sonora melancólica durante toda a narrativa que reflete o estado de espírito de seu protagonista, interpretado brilhantemente por Toni Servillo, que repete pela terceira vez a parceria com Paolo Sorrentino (As Consequências do Amor, 2004 e O Divo, 2008) e também esteve nos cinemas do Brasil este ano no forte A Bela Que Dorme (Marco Bellocchio, 2012), A Grande Beleza é um filme estupendo, essencial a todo cinéfilo e, quiçá, a todo ser humano; uma crítica à vazia alta sociedade italiana e à austeridade da Igreja, com uma linguagem inteligente que baila entre o drama e o humor ácido. Em seus muito bem aproveitados 142 minutos de película, Sorrentino consegue fazer o espectador se divertir, se emocionar e refletir sobre a sua vida e a de Jep, sem desgrudar os olhos da tela um só segundo. É uma história que não termina no fim, mas deixa um gosto de mais querer. Qual a grande beleza da vida? “É só um truque”.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


A Grande Beleza (La Grande Bellezza)

Itália / França - 2013. 142 minutos.

Direção: Paolo Sorrentino

Com: Toni Servillo, Roberto Herlitzka, Sabrina Ferilli, Leo Mantovani, Carlo Buccirosso, Giorgio Pasotti, Massimo Popolizio e Serena Grandi.


Nota: 5

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