domingo, 29 de dezembro de 2013

Movies You Must Watch #11 - Filmes Natalinos

Oi, gente!

Sei que estou um pouco atrasada, mas só tive tempo agora para fazer o post e não queria deixar passar em branco. Filmes natalinos são sempre marcantes e é sempre bom assistirmos a novos filmes que sempre acabam nos emocionando.


Então lá vai a minha lista:

·  Feliz Natal (Joyeux Noël)
Direção: Christian Carion
Origem: França/Reino Unido/Bélgica/Romênia/Alemanha
Ano: 2005


Sinopse: Natal de 1914, em plena 1ª Guerra Mundial. A neve e presentes da família e do exército ocupam as trincheiras francesas, escocesas e alemãs, envolvidas no conflito. Durante a noite os soldados saem de suas trincheiras e deixam seus rifles de lado, para apertar as mãos do inimigo e confraternizar o Natal. É o suficiente para mudar a vida de um padre anglicano, um tenente francês, um grande tenor alemão e sua companheira, uma soprano.

O que dizer desse filme? Simplesmente o filme mais lindo e emocionante sobre o Natal que já vi! O mais impressionante é que ele foi baseado num fato que realmente aconteceu. Os eventos narrados no filme estão na passagem intitulada "O Incrível Inverno de 1914", do livro "Battles of Flanders and Artois 1914-1918", de Yves Buffetaut. Podem falar o que quiserem do Natal, mas não dá pra negar que ainda somos atingidos pelo espírito natalino algumas vezes. Neste caso, ele superou a guerra vigente e criou laços de amizade entre soldados inimigos numa bela confraternização improvisada. Impossível não se emocionar!


·  Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands)
Direção: Tim Burton
Origem: Estados Unidos da América
Ano: 1990


Sinopse: Peg Boggs (Dianne Wiest) é uma vendedora da Avon que acidentalmente descobre Edward (Johnny Depp), jovem que mora sozinho em um castelo no topo de uma montanha, criado por um inventor (Vincent Price) que morreu antes de dar mãos ao estranho ser, que possui apenas enormes lâminas no lugar delas. Isto o impede de poder se aproximar dos humanos, a não ser para criar revolucionários cortes de cabelos, mas ele dá vazão à sua solidão interior ao podar a vegetação em forma de figuras ou esculpir lindas imagens no gelo. No entanto, Edward é vítima da sua inocência e, se é amado por uns, é perseguido e usado por outros.

Sou suspeita para falar dos filmes do Tim Burton, porque sou muito fã, mas Edward Mãos de Tesoura é um clássico que é difícil alguém não gostar e não lembrar quando se trata de Natal. Edward é um personagem cativante e interessante, o melhor da carreira de Depp, em minha opinião. O longa tem uma cena marcante na neve protagonizada por Johnny Depp e Winona Rider e tem todo um clima familiar de Natal, embora tenda para o gótico de Burton. Uma boa pedida para as festas!

·  Anjo de Vidro (Noel)
Direção: Chazz Palminteri
Origem: Estados Unidos da América
Ano: 2004


Sinopse: É Natal em Nova York. As ruas estão cobertas de neve, músicas natalinas estão por toda parte e as pessoas andam apressadas em direção às lojas, para comprar os presentes de última hora. Porém um grupo de pessoas está completamente à parte deste clima. Alguns deles são Rose (Susan Sarandon), uma mulher emocionalmente frágil cuja mãe está no hospital, e Mike (Paul Walker), um policial que briga com um homem mais velho (Alan Arkin). Porém alguns encontros na véspera de Natal fazem com que eles repensem a vida.

Assisti ao filme este ano apenas, mas gostei bastante por transmitir a beleza e o espírito do Natal de uma forma que reflexiva e por tratar de assuntos delicados com muita sensibilidade. As personagens femininas, interpretadas por Penélope Cruz e Susan Sarandon, representam mulheres fragilizadas por situações complicadas que estão vivendo, mas que possuem muita força interior. O pequeno papel que Robin Williams desempenha no filme é importantíssimo para a personagem Rose e passa uma mensagem de amor e esperança. É um filme que possui clichês, mas que conquista pela simplicidade.


·  Esqueceram de Mim (Home Alone)
Direção: Chris Columbus
Origem: Estados Unidos da América
Ano: 1990


Sinopse: Em Chicago, uma família inteira planeja passar o Natal em Paris. Porém, em meio às confusões de viagem um dos filhos (Macaulay Culkin), com apenas 8 anos, é esquecido em casa. Assim, o garoto se vê obrigado a se virar sozinho e a defender a casa de dois ladrões.

E como esquecer o filme que deixou Macaulay Culkin famoso e fez parte da infância de muita gente? Esqueceram de Mim é o clássico dos clássicos de Natal! Kevin McCallister é um dos garotinhos mais sagazes do cinema – é esquecido pela família, fica sozinho em casa pela primeira vez e faz compras sozinho com apenas 8 anos, aprende a se virar e ainda impede dois ladores desajeitados de roubar a sua casa! Hoje em dia essa trama pode ser clichê, mas será relembrada por muitos e muitos anos ainda. Esqueceram de Mim fez parte de incontáveis e inesquecíveis Sessões de Tarde!


·   O Grinch (Dr. Seuss' how the Grinch stole Christmas)
Direção: Ron Howard
Origem: Estados Unidos da América/Alemanha
Ano: 2000


Sinopse: Um Grinch (Jim Carrey) que odeia o Natal resolve criar um plano para impedir que os habitantes da pequena cidade de Quemlândia possam comemorar a data festiva. Para tanto, na véspera do grande dia, o Grinch resolve invadir as casas das pessoas e furtivamente roubar delas tudo o que esteja relacionado ao Natal.

Mais um clássico do Natal e também da Sessão de Tarde. Não tem como se esquecer daquela criatura verde estranha que odeia o Natal e da menininha fofa (Taylor Momsen), que hoje em dia está irreconhecível. Nenhum ator poderia ser mais perfeito para p papel que Jim Carrey. Ele tem aqueles trejeitos já conhecidos que dão um ar infantil e irônico ao personagem malvado que vai se transformando ao longo do filme. Acho quase impossível que alguém ainda não tenha visto, mas se não viu, veja. É uma perspectiva diferente do Natal!

Já viram todos ou algum dos cinco filmes da lista? O que acharam?

sábado, 21 de dezembro de 2013

Além da Fronteira

Histórias de amor complicadas recheadas de reviravoltas são sempre um prato cheio para o cinema, principalmente quando há um final feliz. Se nesse gênero fugir dos clichês é difícil, tornar o clichê interessante aos olhos do espectador é ainda mais. Misturar o clichê a elementos diferenciados costuma ser uma boa opção. É este o caso do ótimo drama romântico Além da Fronteira.

A trama gira em torno da paixão entre o advogado israelense Roy e o estudante de psicologia palestino Nimr. O relacionamento logo se torna sério, obrigando Nimr a esconder sua sexualidade de sua família palestina conservadora ao mesmo tempo em que é rejeitado pela sociedade israelense devido à sua origem e perde seu visto temporário para poder estudar em Tel Aviv. Roy e Nimr precisam tomar importantes decisões para poderem continuar com a vida a dois.


Os dois se conhecem em uma festa e não se desgrudam mais. Após o assassinato de seu amigo Mustafá na Cisjordânia, que era quem o abrigava em Tel Aviv, Nimr passa a ficar sempre na casa de Roy quando vai para a cidade ter aulas na faculdade. A relação dos dois vai se intensificando cada vez mais, até o ponto em que um não consegue mais viver sem o outro. Roy, com seus conhecidos influentes, tenta conseguir um visto permanente para seu namorado, sem nenhum sucesso. A Agência de Segurança israelense retira o visto temporário de Nimr, ameaçando revelar sua orientação sexual à família caso não se torne seu informante. O irmão guerrilheiro de Nmir complica ainda mais a situação do casal, já que Nimr passa a ser perseguido depois que encontram armas de seu irmão Nabil na sua casa de sua família. Roy ajuda Nimr de todas as maneiras, inclusive se sacrificando por ele e colocando sua vida em risco.

A história de Roy (Michael Aloni) e Nimr (Nicholas Jacob) se parece bastante com a história de Noam (Ohad Knoller) e Ashraf (Yousef 'Joe' Sweid) no filme também israelense Bubble (2006), dirigido por Eytan Fox. Os dois longas mostram um relacionamento homossexual enredado em meio ao conflito Israel X Palestina, evidenciando os problemas pelos quais os gays palestinos passam ainda nos dias de hoje. As atuações dos protagonistas em ambos os filmes são tão convincentes que acabam envolvendo completamente o espectador em suas respectivas tramas, gerando uma forte identificação mesmo nos heterossexuais mais convictos.


À frente de seu quarto filme, Michael Mayer nos presenteia com um trabalho bem realizado, com um enredo de tema ao mesmo tempo forte e delicado. A fotografia escura em boa parte da película remete ao título original Out in the Dark e ao clima de tensão presente em quase toda a trama. Tudo é exibido na medida certa – amor, sexo, violência e preconceito. Não é à toa que Além da Fronteira venceu o prêmio de melhor filme estrangeiro no 21° Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade, eleito pelo júri popular.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Além da Fronteira (Out in the Dark)

Israel - 2012. 96 minutos.

Direção: Michael Mayer

Com: Alon Pdut, Jamil Khoury, Khawlah Hag-Debsy, Loai Nofi, Michael Aloni e Nicholas Jacob.


Nota: 4

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Os Filhos da Meia-Noite

Em 15 de agosto de 1947, mesmo dia em que a Índia conquistou sua independência, vieram ao mundo em uma maternidade dois bebês à meia-noite – um filho de pais ricos e outro filho de pais pobres. Movida pelo ideal revolucionário do homem amado (“Que os ricos sejam pobres, que os pobres sejam ricos”), a enfermeira Mary (Seema Biswas), em segredo, troca os bebês, fazendo com que um viva a vida do outro – Saleem (Satya Bhabha) ganha uma vida de riqueza enquanto Shiva (Siddharth Narayan) tem uma vida cheia de privações. Os dois meninos têm, então, suas vidas interligadas e marcadas por coincidências, embora estejam sempre em lados opostos.


Baseado no premiado romance homônimo de Salman Rushdie, que foi também o responsável pelo roteiro, o longa Os Filhos da Meia-Noite nos traz uma confusa mistura de guerra, drama, romance e misticismo no melhor estilo indiano, evidenciando as diferenças sociais, os desafios e reviravoltas da vida, com muitas cores e uma trilha sonora tipicamente indiana, tal qual Quem Quer Ser um Milionário? (Danny Boyle, 2009). Através da narração em voice-over de Rushdie, a trama apresenta um bom panorama histórico da Índia pelos olhos de Saleem, que inicia a história por suas origens, falando do avô médico. Entretanto, perde por dar foco à parte melodramática da história, com o estilo próximo ao de uma telenovela.
Todo o filme tem como plano de fundo a guerra entre Índia e Paquistão causada pelos ingleses ao decretar a independência da Índia e fazer a partilha do país, que resultou na divisão paquistanesa em 1971, com a consequente criação de Bangladesh, e na eterna rixa entre Paquistão e Índia. Quem nunca ouviu falar dos conflitos, provavelmente ficará perdido durante a projeção, já que são quase duas horas e meia de um conteúdo muito extenso e pouco desenvolvido.

As crianças que dão título às obras literária e cinematográfica nasceram no mesmo dia que Saleem e Shiva com alguns minutos de diferença, totalizando 582. Cada uma possui um poder diferente, advindo de seu horário de nascimento. Saleem possui o poder paranormal de reunir todos os chamados “filhos da meia-noite”. Não há explicação de como ocorre esta reunião: pelas imagens, parecem almas em volta de Saleem, porém ele consegue tocá-las e vice-versa. É como se houvesse uma curiosa materialização dos “filhos da meia-noite” por meio do mais chamativo atributo de Saleem: seu protuberante nariz. De uma maneira um tanto cômica, os “filhos da meia-noite” são como um grupo de X-Men indianos, com poderes variados que devem ser mantidos apenas entre eles para sua segurança, devido à falta de compreensão e medo da população e do governo. Inicialmente, o elemento místico causa certo estranhamento, mas, ao se fundir com boa parte da trama, torna-se fundamental para o seu desenvolvimento. Os “filhos da meia-noite” fazem alusão à esperança da Índia nas novas gerações para resolução dos conflitos e também aos deuses milenares reverenciados pela cultura hindu.


A co-produção entre Canadá e Inglaterra é o segundo trabalho (também uma adaptação de um livro, no caso “Cracking Índia”, de Bapsi Sidhwa) da diretora indiana radicada no Canadá Deepa Mehta – que já teve dois filmes indicados ao Oscar a Melhor Filme Estrangeiro (Fogo e Desejo, 1996 e Às Margens do Rio Sagrado, 2005) – sobre o mesmo tema, sendo o primeiro Earth 1947 (1999), único filme da Trilogia dos Elementos a não ser indicado ao Oscar. Midnight's Children (no original) tem uma produção de qualidade e boa vontade, mas é cansativo e pouco cativante. Depois da primeira hora de projeção, o espectador vê-se perdido em meio a tantas informações simultâneas que lhe são apresentadas tão rapidamente sem aprofundamento, dando sempre maior importância ao conteúdo melodramático. Mesmo assim, o filme vai agradar quem gosta dos elementos exóticos e misteriosos da Índia.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Os Filhos da Meia-Noite (Midnight's Children)

Canadá / Reino Unido - 2012. 146 minutos.

Direção: Deepa Mehta

Com: Darsheel Safary, Satya Bhabha, Siddharth Narayan, Shahana Goswami, Shriya Saran, Anita Majumdar, Rahul Bose, Samrat Chakrabarti, Seema Biswas, Zaib Shaikh, Soha Ali Khan, Rajat Kapoor, Anupam Kher e Ranvir Shorey.


Nota: 3

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma Noite de Crime

Estamos em 2022, um ano não muito distante do atual – e é isso o que mais assusta. O índice de criminalidade nos Estados Unidos é mínimo, o menor já registrado. A taxa de desemprego é de apenas 1%, muito diferente da presente situação da falta de emprego que assola o país. O que parece até um milagre é, na verdade, um novo plano do governo vigente em 2022, que inclui uma noite de violência sem medidas e sem punição, que parece estar cada vez mais fora de controle, já que a intensidade do ato nas 12 horas anuais permitidas registra um número maior de mortes e feridos a cada ano. Na noite do Expurgo, como é chamada, é permitido cometer qualquer tipo de crime sem consequências legais, com limitação de armas até o nível 4 (que não é explicada no filme, apenas citada), porém oficiais do Governo de classe 10 (que também não há explicação) não participam do “evento”, com imunidade total a ataques violentos. Interessante, não?

É neste cenário que surge a família Sandin, cujo patriarca enriqueceu vendendo sistemas de segurança para os vizinhos do condomínio onde vivem, provocando a inveja velada dos mesmos. No dia antes de começar o Expurgo, todos se cumprimentam e se despedem com “tenha uma noite segura”, e isso é a última coisa que os Sandin’s terão nas próximas 12 horas, graças ao caçula Charlie, que permitiu que um homem ferido entrasse em sua casa, provocando a ira de jovens que o estavam utilizando para expurgar naquela noite. Liderados por um rapaz educado e bem apessoado, o grupo ameaçou invadir a casa e descontar toda a sua raiva em toda a família caso não lhes fosse entregue o homem ferido para que pudessem continuar com seu divertimento assassino. O líder dos jovens, interpretado por Rhys Wakefield (de Santuário), lembra o psicopata Paul (Michael Pitt) na versão americana de Violência Gratuita (Michael Haneke, 2007), tanto na aparência, no modo de falar e pensar quanto na execução de um violento e sádico jogo envolvendo uma família inocente. O próprio nome original da obra de Haneke, Funny Games US, reforça esta ideia. Aliás, em se termos de nome, o título original The Purge se mostra mais adequado que Uma Noite de Crime, visto que todo ato violento praticado no dia do Expurgo não é considerado crime pela lei, e sim um ato de expurgo (purge, em inglês).


 “Abençoados sejam os novos fundadores por nos deixarem expurgar e purificar nossas almas. Abençoada seja a América, uma nação renascida. Que Deus esteja com vocês”. Sob este cínico e descabido discurso, os cidadãos (?) americanos colocam toda sua violência contida para fora e deixam cair suas máscaras sociais, utilizadas nos outros de 364 dias do ano, em Uma Noite de Crime. O filme é uma clara crítica ao reverenciado american way of life, suas consequências e seus possíveis efeitos futuros. Logo no início da trama, há uma discussão em segundo plano no rádio e na televisão sobre o Expurgo ser uma limpeza social, já que os mais prejudicados financeiramente, os doentes e os incapazes fisicamente – que não são contribuintes do governo – não podem pagar por uma segurança eficaz e acabam sendo mortos no fatídico dia. Assim, o Expurgo melhorou a economia americana e aumentou a venda de armas e sistemas de segurança. Enquanto isso, um outro lado afirma que o Expurgo é positivo pelo diminuição do índice de violência e porque permite às pessoas se libertarem de toda soma de sentimentos negativos acumulados durante um ano inteiro. E tudo isso em nome de Deus, como se fosse uma purificação da alma, o que levanta a polêmica da cegueira e justificativa religiosa, como em Somos o Que Somos (Jim Mickle, 2013), através do canibal Frank Parker (Bill Sage), e em O Código Da Vinci (Ron Howard, 2006), através da figura do devoto Silas (Paul Bettany).

O personagem Charlie (Max Burkholder), que causa toda a reviravolta no enredo, fomenta uma divisão moral no espectador: o menino está certo ou está errado em ajudar um desconhecido no meio de um dia tão sangrento, sabendo que se não ajudasse ele morreria, mesmo colocando em risco toda a sua família? James Sandin, interpretado pelo competente Ethan Hawke (da trilogia romântica de Richard Linklater e O Senhor das Armas, 2005) na segunda parceria com James DeMonaco, agiu corretamente ao fazer a sua escolha sobre entregar ou não o desconhecido aos jovens, arriscando a sua sobrevivência e de sua família? Esta dicotomia de princípios permeia toda a trama e nos faz refletir, e muito, sobre a estrutura da sociedade, não só americana como também mundial.


À frente de seu segundo longa como roteirista e diretor, James DeMonaco constrói uma trama extremamente tensa, repleta de terror psicológico – principalmente quando o grupo de jovens ainda não entrou na casa e fica do lado de fora com suas máscaras macabramente sorridentes, saltitando e simulando tiros e golpes com faca –, e pouco exagero na violência física, como é comum na maioria dos filmes de terror. O que se deseja mesmo na noite do Expurgo é saciar a vontade de matar, então não há muita tortura física – é apenas a violência pela violência, cega e desmesurada.

DeMonaco escolheu dar foco à casa de uma família, criando uma história em torno dela, e não a todas as situações que ocorrem nas ruas durante as 12 horas mais longas do ano. O filme é introduzido com imagens de câmeras de rua mostrando ataques violentos durante o Expurgo em diferentes anos, desde o primeiro em 2017. Na continuação de Uma Noite de Crime, que já está em fase de pré-produção devido ao grande sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, será muito mais interessante que seja apresentada esta parte que foi desvalorizada em seu predecessor para que possam ser levantadas discussões ainda mais ricas sobre assuntos tão atuais e que afetam o mundo todo.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Uma Noite de Crime (The Purge)

EUA - 2013. 85 minutos.

Direção: James DeMonaco

Com: Ethan Hawke, Lena Headey, Max Burkholder, Adelaide Kane, Edwin Hodge, Rhys Wakefield, Tony Oller, Arija Bareikis, Dana Bunch, Chris Mulkey e Tom Yi.

Nota: 4

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Preenchendo o Vazio

Casamento arranjado é um assunto bastante corriqueiro em tramas cinematográficas. Diversas são as culturas que adotam tal ritual, entre elas indiana, islâmica e judaica. Ao longo dos anos, seu radicalismo diminuiu um pouco, porém a raiz e o princípio das tradições persistem arraigados na mente e no cotidiano de seus cidadãos. O filme israelense Casamento Arranjado (2001), dirigido por Dover Kosashvili, evidencia isso através da história de Zaza (Lior Ashkenazi), que está apaixonado por uma mulher divorciada e mãe de uma filha de seis anos, que é desaprovada por sua família, que deseja que ele se case com uma jovem rica, bonita, virgem e de boa família – aquela velha história. Assim, Zaza precisa escolher entre seu grande amor ou preservar a tradição familiar.

Em Preenchendo o Vazio, está presente a mesma essência, de forma diferente. Shira (Hadas Yaron, uma feliz revelação) é uma moça de 18 anos, a filha caçula da família Mendelman, e vive na comunidade ultra-ortodoxa de Telaviv. Prestes a se casar com um rapaz de que gosta e de boa família, sua irmã Esther morre no parto de seu primeiro filho, Mordechay, deixando viúvo seu marido Yochay (Yiftach Klein). Temendo ficar longe de seu único neto, Rivka (Irit Sheleg) planeja casar sua filha Shira com seu genro, criando uma delicada situação familiar.


Alguns meses após a morte de Esther, Yochay começa a pensar em se casar novamente e uma candidata que mora na Bélgica lhe é apresentada, deixando sua sogra desesperada em ficar longe do neto. É então que ela tem a ideia de casar os cunhados. Yochay se recusa a princípio, mas acaba se interessando por Shira, que não tem a menor vontade de se casar com ele. Entretanto, depois de não ser aceita pela família do rapaz de quem gosta, Shira reconsidera e começa a pensar na proposta, mesmo não tendo sentimentos por Yochay e se sentindo desconfortável com toda a situação criada pela mãe. O dilema de Shira norteia toda a película. Ela se sente culpada por não gostar de Yochay o bastante para casar e por ele ir embora para a Bélgica, caso não aceite o acontecimento. Desse modo, é apresentada uma falsa liberdade de escolha, pois todos dizem que cabe a ela decidir sobre seu casamento ao mesmo tempo em que a pressionam de maneira indireta, principalmente sua mãe.

A circunstância apresentada a Shira e Yochay lembra a Lei do Levirato (ordenada em Deuteronômio 25:5-6 na Bíblia hebraica) só que ao revés, já que a mesma obriga um homem a casar-se com a viúva de seu irmão quando esta não deixar descendência masculina, mas não o contrário – uma mulher casar-se com o viúvo da irmã para dar-lhe um descendente. Felizmente, nasceu um herdeiro do casamento de sua irmã Esther com seu cunhado, embora o levirato não pudesse ser aplicado à Shira.


Em seu primeiro longa-metragem dirigido em Israel, a judia ultra-ortodoxa Rama Burshtein nos proporciona um mergulho fascinante na cultura judaica, concentrando-se em seus rituais e tradições ditos machistas. A diretora se inspirou num encontro que teve com uma jovem que ficou noiva do antigo cunhado para criar o filme, por isso parece tão realista.

Preenchendo o Vazio mostra a condição das mulheres judias na sociedade ultra-ortodoxa e a angústia de uma jovem diante de uma difícil escolha, que não chega a ser uma “escolha de Sofia”, mas que mudará sua vida para sempre e por completo. É interessante conhecer as regras internas de uma família judaica, acompanhar a sua vida diária e perceber como cada personagem tenta preencher o vazio que foi deixado pelo falecimento de Esther e suas consequências. Apesar de perder um pouco o ritmo durante o longo dilema de Shira, a trama não perde a sua relevância cultural e continua envolvente, despertando no espectador a curiosidade para o desfecho – que se mostra óbvio, mesmo que esteticamente belo.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Preenchendo o Vazio (Lemale et ha'halal)

Israel - 2012. 94 minutos.

Direção: Rama Burshtein

Com: Hadas Yaron, Yiftach Klein, Ido Samuel, Irit Sheleg, Renana Raz e Chayim Sharir.


Nota: 3

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Somos o Que Somos

O cenário mais comum para filmes americanos de terror é o interior dos Estados Unidos. É nas cidades mais pacatas, onde toda a pequena população se conhece, que se escondem as mais estranhas, para não dizer bizarras, figuras e os mais obscuros segredos. O ostracismo desses personagens sempre acaba gerando a curiosidade dos moradores da cidade, e claro, das novas pessoas da vizinhança; até que são finalmente descobertos. As histórias são as mais variadas: vampiros e outras criaturas sobrenaturais, assassinos loucos e inveterados, serial killers que surgem de uma hora para outra, psicopatas, pessoas que lidam com magia negra, entre outras. O tipo, digamos, mais excêntrico, e talvez mais polêmico, é o canibal, por se tratar de algo inconcebível ao senso comum; e é justamente este o tema retratado, de forma surpreendente, no longa de Jim Mickle.

Em Somos o Que Somos, uma incessante chuva torrencial inunda a pequena cidade onde vive a família Parker, que tem seus segredos ancestrais ameaçados, pela primeira vez, por uma investigação policial. Com a morte repentina da mãe, Rose e Iris são forçadas pelo severo pai a dar continuidade nas tradições familiares, custe o que custar.


Frank Parker (Bill Sage) é um homem autoritário que acaba de perder a esposa, mas que mantém seu rigor e agressividade. Apesar de ser o patriarca da família, Frank incumbe a suas filhas Rose (Julia Garner) e Iris (Ambyr Childers) os cuidados do irmão mais novo Rory (Jack Gore) e a obrigação de seguir com os costumes carnívoros da família. Desde 1782, os Parker começaram com a tradição do Dia do Cordeiro, que consiste em todo um ritual de assassinato, corte, cozimento à la Sweeney Todd (Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet/Tim Burton, 2007) e ingestão de carne humana, conduzido pela mulher mais velha da família.

Apesar de ser um remake do filme de terror mexicano de mesmo nome (originalmente Somos Lo Que Hay, 2010), Jim Mickle e o co-roteirista Nick Damici – com quem já trabalhou anteriormente em Stake Land - Anoitecer Violento, 2010 e Infecção em Nova York, 2006 – quiseram fazer de We Are What We Are (no original) uma versão única, mantendo apenas a mesma premissa do canibalismo familiar. Neste, há um inversão de sexos, com as mulheres sendo as filhas mais velhas e responsáveis por dar continuidade ao costume, o irmão caçula sendo alheio a toda a bizarrice que ocorre naquela família (ao contrário da irmã mais nova da versão mexicana, que participa ativamente de tudo), a mãe sofrendo um ataque e vindo a óbito, ao contrário do mexicano, e uma nova trama secundária, envolvendo o médico legista da cidade e um breve flerte entre a filha mais velha e um antigo colega de escola, que agora é subdelegado. Além disso, há a relação entre o canibalismo e a religião, mostrando Frank invocando o nome de Deus para justificar seus atos grotescos. É a boa e velha dicotomia moral entre o bem e o mal, o certo e o errado sendo posta em discussão no cinema, através dos papeis do pai e das duas irmãs, interpretadas por Julia Garner e Ambyr Childers, que roubaram a cena com suas excelentes atuações durante todo o filme.


Jim Mickle traz ao espectador não apenas um simples filme de terror, mas um material de qualidade, capaz de levantar importantes assuntos, com uma fotografia incrível, um clima gótico fascinante, uma tensão sombria e um final arrebatador. É muito difícil um remake ser superior à obra original, mas Somos o Que Somos conseguiu realizar essa proeza e ainda servir como um complemente ao seu filme-inspiração, que dá a sensação de estar inconcluso. O fechamento com chave de ouro se dá pela música “It Was Me That Made Her Bad”, do cantor country Tommy Strange, que explica, em seus poucos mais de dois minutos, toda a essência do filme.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Somos o Que Somos (We Are What We Are)

EUA - 2013. 105 minutos.

Direção: Jim Mickle

Com: Bill Sage, Ambyr Childers, Julia Garner, Michael Parks, Wyatt Russell, Kelly McGillis, Nick Damici e Jack Gore.


Nota: 4

sábado, 7 de dezembro de 2013

Coletiva de Imprensa de Crô – O Filme

No dia 11 de novembro, estive presente, pelo Almanaque Virtual, na coletiva de imprensa do longa-metragem de um dos personagens mais divertidos das telenovelas brasileiras, que ocorreu em um hotel no Rio de Janeiro. O spin-off da novela “Fina Estampa”, intitulado Crô – O Filme, foi exibido antes da coletiva em um cinema em Botafogo, numa sessão para a imprensa, que teve o prazer de assistir à versão final antes mesmo do elenco e do próprio roteirista, que é também autor da novela e criador do personagem-título. Mais tarde, no período da noite do mesmo dia, aconteceu a pré-estreia do filme, num cinema da Barra da Tijuca, que contou com a presença de muitos famosos, além de quase todo o elenco, do diretor, da produtora e do roteirista.

Na coletiva, os atores Marcelo Serrado, Katia Moraes e Carlos Machado, o diretor Bruno Barreto, o roteirista Aguinaldo Silva e a produtora Paula Barreto conversaram e responderam às perguntas dos jornalistas em tom descontraído, evidenciando como foi prazeroso realizar este trabalho, mesmo com todas as dificuldades financeiras e em tempo recorde (menos de 1 ano), por se tratar de um filme de ocasião. Foi sentida a falta de Carolina Ferraz, Milhem Cortaz e, principalmente, de Alexandre Nero, que interpreta Baltazar, o complemento e o contraponto de Crô, numa dinâmica de O Gordo e O Magro, como apontado por Serrado durante as entrevistas.

Foto por Raíssa Rossi

O diretor Bruno Barreto abriu as entrevistas explicitando como surgiu a ideia de realizar um filme sobre Crodoalvo Valério. Ele diz que assistiu aos primeiros capítulos da novela “Fina Estampa”, ficou encantando com o personagem e teve vontade de fazer um filme sobre ele. Entrou em contato com Aguinaldo Silva, que escreveu um roteiro que lhe agradou muito, e assim a ideia começou a tomar forma. Sobre o caminho percorrido para chegar ao roteiro, o autor disse que se baseou no fim que o personagem teve na novela e criou uma história para ele desvinculada da mesma, incluindo três personagens básicos do núcleo de Crô – o próprio, Baltazar e Marilda. Como o cinema permite muitos elementos que a televisão não permite, o autor pôde incluir o enredo sobre o trabalho escravo, dando mais dramaticidade à comédia, o que, em sua opinião, não seria facilmente suportado durante 6 meses na novela. Sobre com quem Crô ia terminar a novela, Silva disse que aproveitou o filme para dar ao público o final que tanto queriam que tivesse ocorrido na novela, além da revelação do mistério de quem era o amante de Crô, que deixou os telespectadores se roendo de curiosidade após o término de Fina Estampa. Ivete Sangalo, que interpreta a mãe de Crô, foi a primeira musa do novo milionário. Ao abraçar a profissão de mordomo, Crô passou a fazer o que sabia de melhor: servir mulheres poderosas, suas rainhas do Nilo. Depois que ficou rico, parou de trabalhar e ficou entediado, sem sentido na vida. Por isso, decidiu voltar a trabalhar como mordomo, uma missão que parecia fácil, mas que acabou mudando completamente a vida do nosso divertido protagonista.

Marcelo Serrado, ao ser perguntado sobre a repercussão de seu personagem, eleva Aguinaldo Silva, afirmando que este tem uma enorme capacidade criativa, elaborando diversos personagens marcantes e eternos para a televisão, como Narazé Tedesco (vivida intensamente por Renata Sorrah) e Giovanni Improtta (interpretado por José Wilker e que também ganhou um spin-off com o nome do personagem este ano, porém sem o roteiro do autor) da novela Senhora do Destino. O sucesso sempre é esperado, mas Crô ultrapassou as suas expectativas e do autor, além da barreira dos preconceitos por ele ser um homossexual assumido, sendo bem aceito pela comunidade gay e muito amado pelas crianças. E por que as crianças amam o Crô? Aguinaldo Silva responde: “Porque o Crô é o Pica-Pau!”. Crô é um personagem lúdico, infantil, tanto que na trama ele é comparado a um boneco da personagem mirim Paloma, que se identifica de cara com o ex-mordomo.

Por ter se apegado ao personagem, Serrado afirmou ter um desejo de utilizá-lo em outro projeto, mas não fazia ideia de que ele teria seu próprio filme, sendo pego de surpresa por Barreto com o convite para a filmagem. Sua única exigência ao diretor foi, em suas palavras, que “o roteiro fosse do Aguinaldo” para não virar um híbrido com qualidade inferior ao presente resultado; e Silva afirmou logo em seguida, aos risos, que só permitiria a realização do filme se o roteiro fosse dele.

Foto por Raíssa Rossi

Silva conta sobre a dificuldade que foi convencer a produção da novela de que Serrado seria perfeito para o papel de Crô, pois ele vinha de um personagem extremamente violento em outro trabalho, e que foi surpreendido pelo talento do ator, que agradece ao fato de o autor arriscar em suas escolhas e por ter sido eleito para o papel. Serrado diz que gosta de interpretar “tipos”, dando gancho a Barreto para falar que gosta de variar nos gêneros dos filmes que faz “para não enferrujar”. Ele ainda disse que foi muito mais complicado dirigir o filme do mordomo mais famoso do Brasil que dirigir o belíssimo Flores Raras, devido ao fato de, para ele, a comédia ser o gênero mais difícil que existe para tornar uma história crível e do personagem já ter vindo construído da televisão, tendo necessidade de adaptação para a linguagem cinematográfica. Pelo fato de Crô ser um personagem muito peculiar, com expressões faciais engraçadas, trejeitos e roupas extravagantes, a comédia não fica por conta apenas do texto, com piadas, ela é muito visual, o que torna o filme mais leve e interessante, segundo o diretor. Há ainda as participações especiais de Ana Maria Braga e Gaby Amarantos.

Acerca do tema da exploração de trabalho de costureiras bolivianas em São Paulo, uma escravidão existente ainda nos dias de hoje, Silva confessa que pensou imediatamente neste assunto quando Barreto lhe pediu para escrever o roteiro, pois é um assunto que já lhe incomoda há um certo tempo e que mostraria um outro lado do Crô que não fosse o cômico, seguindo por um viés mais denso, dramático e humano do personagem. A atriz Úrzula Canaviri, que interpreta a pequena Paloma, recebeu elogios do ator Carlos Machado e Barreto mencionou que ela foi encontrada pela produtora de elenco Márcia Andrade – que já fez outros três trabalhos com ele e selecionou o elenco de Fina Estampa – num grupo folclórico de dança boliviana em São Paulo. Sobre o fim da película, que se emenda aos créditos finais no formato de desenho animado, Barreto disse que a ideia foi dele e que foram feitos por uma talentosa dupla de animadores.

Aguinaldo Silva, que se popularizou escrevendo roteiros para novelas na Rede Globo, iniciou sua carreira escrevendo roteiros para o cinema (Prova de Fogo, dirigido por Marco Altberg), e revela que é o que mais tem prazer em escrever. Ele diz que gosta menos de escrever novelas porque “A novela é como se fosse uma fábrica de pizza: está sempre saindo uma do forno e já tem a outra. No cinema, tem tempo para melhorar”.

Foto por Raíssa Rossi

Questionada sobre as dificuldades financeiras do projeto, Paula Barreto relatou que houve muitas, já que o filme não é patrocinado por nenhuma empresa, somente pela Paris Filmes, Downtown Filmes, Globo Filmes, RioFilme e LC Barreto. Paula também afirmou que foi difícil encontrar empresas interessadas em fazer product placement no filme, pelo fato de o personagem ser homossexual, demonstrando um preconceito velado e latente ainda nos dias de hoje. Somente a empresa Rei do Mate teve interesse em aparecer em duas cenas do filme. O valor gasto para produzir o filme (5,2 milhões) foi maior que o valor captado (quase 4 milhões), deixando um vermelho de mais ou menos 2 milhões de reais. Nas palavras de Paula: “hoje em dia no mercado as mecânicas de financiamentos que tem não atendem ao ritmo industrial de produção. Então você tem que ir para banco.” Dessa maneira, ela espera o filme faça sucesso entre os espectadores para que a dívida possa ser quitada.


Crô – O Filme estreia em aproximadamente 400 salas em todo o Brasil, no dia 29 de novembro, com classificação livre.


*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Crô – O Filme

Quem assistiu pelo menos alguma vez à novela da Rede Globo "Fina Estampa" com certeza se lembra do carismático mordomo Crodoaldo Valério, mais conhecido como Crô. Depois de herdar uma fortuna de sua última e falecida patroa Theresa Cristina (interpretada por Cristiane Torloni e lembrada singelamente com uma foto num porta retrato), Crô ficou milionário, parou de trabalhar e se mudou para sua antiga casa de família em São Paulo. Acontece que a vida de ex-mordomo rico o deixou entediado e deprimido, então depois de tentar diferentes profissões, ele resolveu voltar a fazer o que mais gosta: servir mulheres que considera poderosas. Começa aí uma caça por uma nova patroa que mereça ter a afeição do melhor mordomo do Brasil.


O enredo do filme tem como ponto de partida o final que o mordomo teve na novela, pois não era possível desvincular totalmente o personagem da história que o público já conhecia. Por mais diferente que a história seja da novela, o filme acaba sendo uma continuação da mesma, já que Baltazar (Alexandre Nero) e Marilda (Kátia Moraes), dois personagens do núcleo de Crô em "Fina Estampa", também tiveram papéis importantes no longa, assim como Carlos Machado. Além disso, acontece finalmente a revelação do amante misterioso de Crô e este tem o final que grande parte do público queria que tivesse na época. Aguinaldo Silva aproveitou a oportunidade fílmica para fazer esse agrado ao público. O filme também mostra a origem dos hábitos submissos de Crô e de seus engraçados trejeitos: a mãe de Crô, primeira “rainha do Nilo” de sua vida, interpretada por Ivete Sangalo. Não à toa, Crô procurou em suas patroas uma figura de deusa para servir e adorar parecida com sua mãe, que ganhou uma belíssima estátua na entrada de sua nova casa, e a encontrou onde menos esperava.

Assinado por Aguinaldo Silva, autor de "Fina Estampa" e criador do personagem, o roteiro de Crô – O Filme surpreende pela carga dramática, assim como Giovanni Improtta (2013), outro spin-off de um personagem criado pelo mesmo autor, dirigido e protagonizado por José Wilker. A comédia é o ponto forte da trama, porém é misturada a um dramalhão envolvendo trabalho escravo de bolivianas em São Paulo, um assunto que há um bom tempo incomoda Silva, que viu a oportunidade de encaixá-lo neste filme e dar um final inesperado a Crô. Além disso, o descontentamento de Crô devido ao ostracismo causado por sua riqueza também é um tema que levanta outras discussões pertinentes aos dias de hoje: a importância de ter uma ocupação na vida que lhe dê prazer e se o dinheiro traz ou não felicidade. Tal mescla no roteiro fez com que este ficasse um pouco confuso e fez com que o ritmo fosse perdido em alguns momentos. O autor quis ressaltar muitos assuntos de uma só vez e acabou não se aprofundando em nenhum, dando foco sempre nas peripécias Crô e sua turma. A participação especial de Ana Maria Braga serviu para complementar a trama, mas não acrescentou em nada, e a de Gaby Amarantos foi totalmente dispensável, numa cena com interpretação forçada da cantora vestida de “paquita glitterinada”.


Após o sucesso do ótimo Flores Raras, que está sendo lançado agora nos Estados Unidos, Bruno Barreto resolveu voltar a se aventurar no terreno da comédia (a última vez foi no filme Caixa Dois, em 2007) com um spin-off de um personagem vindo da televisão que desejou fazer desde que o viu nos primeiros capítulos de "Fina Estampa". Ele se baseou nos filmes mais antigos do ator e diretor Jerry Lewis, indicando ao ator Marcelo Serrado que os assistisse para ter uma boa base para composição de seu personagem no longa. Crô – O Filme acaba por ser um filme de ocasião com momentos divertidos apenas porque Crô é uma figura caricata e engraçada. Quem assistiu à novela acaba tendo vantagens e se identificando mais com a trama, enquanto quem não a assistiu fica um pouco perdido com os fios soltos. Apesar de tudo, o filme cumpre com seu papel – o de entretenimento sem compromisso e de lembrança do sucesso de seu personagem-título aos fãs.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Crô – O Filme

Brasil - 2013. 90 minutos.

Direção: Bruno Barreto

Com: Marcelo Serrado, Alexandre Nero, Milhem Cortaz, Carolina Ferraz, Carlos Machado, Ivete Sangalo, Kátia Moraes, Úrzula Canaviri e Karin Rodrigues.


Nota: 3

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...