sábado, 30 de novembro de 2013

Cine Holliúdy

Baseado no curta-metragem Cine Holiúdy - O Astista Contra o Caba do Mal (2004), Cine Holliúdy conta a história de Francisgleydisson, um típico cearense do interior que tenta manter aberta sua sala de cinema, a grande paixão de sua vida, lutando contra a chegada da TV, em plenos anos 70. Na tentativa de realizar seu sonho, ele e sua família se mudam para Pacatuba, um pequeno município com uma exótica plateia que esperava ansiosamente por um cinema na cidade.

O filme começa mostrando a vida em família de Francisgleydisson (Edmilson Filho), sua esposa Maria das Graças (Miriam Freeland), seu filho Francisgleydisson Filho (Joel Gomes), apelidado de Francinho, e seu mico de estimação Montanha. Francis, apelido de nosso protagonista, é um contador de histórias nato e adora contar histórias mirabolantes, principalmente de filmes, para seu filho Francinho, que cresce envolto aos sonhos do pai, tomando-os para si. A mãe é um pouco mais realista, preocupada com seu filho, como ela mesma repete para Francis algumas vezes, mas também acaba embarcando na onda sonial de seu marido, sempre o ajudando e apoiando em tudo. Ao contrário do curta, que se limita a apenas uma cena dentro do cinema, o filme mostra a trajetória de Francis até conseguir montar o Cine Holliúdy e também o que aconteceu muitos anos depois de ter alcançado este sonho.


Sendo introduzido pela música “Kung Fu Fighting”, do cantor jamaicano Carl Douglas, assim como na comédia singapuriana That’s The Way I Like It (Glen Goei, 1988), o público já pode prever um dos temas que será destaque em Cine Holliúdy – o kung fu. Francisgleydisson é fã da arte marcial e possui vários filmes que incluem muitos golpes da luta, com direito a voadoras na pleura e com dublagem em “cearencês”. Em That’s The Way I Like It, o protagonista Hock (Adrian Pang) também adora kung fu e tem Bruce Lee como grande ídolo. Há também uma discreta referência à Era Disco, que estava ocorrendo na mesma época em que se passa o filme, com a música introdutória, uma outra disco music como fundo da cena de revitalização do cinema em família e nos trajes do personagem principal (calça de boca larga e camisas bem coloridas).

Cine Holliúdy é uma tentativa deveras pretenciosa de ser um Cinema Paradiso (1988) do Ceará. Halder Gomes buscou mais do que inspiração para seu longa na obra prima de Giuseppe Tornatore. Nuovo Cinema Paradiso (no original) é provavelmente a maior homenagem metalinguística ao cinema já realizada, envolvida numa belíssima rede de amor, sonhos e esperança, essências do filme de Gomes. Os protagonistas Francisgleydisson e Salvatore (Jacques Perrin) possuem o amor incondicional pelo cinema e a persistência como principais atributos comuns. Além disso, a cena da primeira sessão do cinema de Pacatuba assemelha-se às cenas das sessões no Cinema Paradiso, com personagens divertidos com características marcantes.


Quem assistiu ao curta que originou o filme, Cine Holiúdy - O Astista Contra o Caba do Mal, pôde perceber que ambos são bem parecidos e possuem até falas repetidas vindas dos mesmos personagens na cena citada anteriormente. Gomes poderia ter tido mais originalidade ao escrever o roteiro de Cine Holliúdy e aproveitá-lo melhor. A cena que mais se destaca na trama, que é bem mais prolongada do que no curta, é quando ocorre um problema técnico com o projetor e Francisgleydisson precisa improvisar para contornar a situação, transformando a sessão de cinema em um verdadeiro stand-up kung fu. A película tem momentos divertidos, muitas vezes marcados por expressões do “cearencês”, com um humor leve sem precisar apelar para palavrões e cenas picantes, como a maioria das comédias brasileiras na atualidade. Só por isso já tem seu mérito. Conseguir entreter o espectador fugindo do óbvio num cenário cinematográfico de comédia cada vez mais enlatado é uma grande conquista.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Cine Holliúdy

Brasil - 2013. 91 minutos.

Direção: Halder Gomes

Com: Edmilson Filho, Miriam Feeland, Roberto Bomtempo, Fiorella Mattheis, Marcondes Falcão, Rainer Cadete, Marcio Greyck, Joel Gomes, Jesuíta Barbosa e Karla Karenina.


Nota: 3

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os Contos da Noite

O que pode surgir de reuniões noturnas entre uma menina, um menino e um velho senhor em um antigo cinema abandonado? Muita imaginação, magia, aventura e fantasia. Os três amigos pesquisam em livros, computadores, desenham seus trajes e viajam em suas quimeras enquanto a cidade dorme.

O filme é composto por seis contos, que passeiam por cidades de ouro, perigosas florestas, criaturas mágicas, bravos cavaleiros e princesas, inspirando-se em vestimentas, penteados e antigas histórias astecas, africanas e tibetanas. Todos os contos possuem uma forte moral envolvida, evidenciando valores às vezes esquecidos e muitas vezes desvalorizados pela sociedade moderna, como a gentileza, a honestidade e a bondade. O que pode parecer uma história boba a alguns olhos adultos desprovidos de sensibilidade aguçada é, na verdade, uma lição de vida e uma crítica à humanidade. Suas tramas envolvem e até divertem o espectador, mesmo com suas constantes pausas e diferenças entre si.


O que faz toda a diferença em Os Contos da Noite é sua incrível fotografia baseada na arte do teatro de sombras, que dá um efeito de pintura às cenas. As cores do fundo são fortes e os personagens, com silhuetas bem recortadas, são pretos sem feições frontais, somente de perfil, e apenas com os olhos brancos, porém com adereços ricos em detalhes. O 3D, aplicado pela primeira vez em um filme do diretor e animador Michel Ocelot, dá um toque final ao belíssimo contraste entre os personagens e os cenários, assim como em Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte II, dirigido por David Yates, que utiliza a mesma técnica de teatro de sombras na cena em que a personagem Hermione (Emma Watson) lê o Conto dos Três Irmãos para Harry (Daniel Radcliffe) e Ron (Rupert Grint). Além disso, há a presença de sonoridade marcante durante todo o filme, principalmente no que diz respeito a ruídos produzidos pela natureza.

Em Les Contes de La Nuit (no original), Michel Ocelot repete a mesma fórmula utilizada em seu outro longa - um dos mais conhecidos no Brasil -, Príncipes e Princesas (2000), só que com histórias distintas e uma melhor qualidade de imagem, possível pelas novas tecnologias de treze anos de diferença entre ambos. Parece até que um é continuação do outro.


Embora Ocelot afirme não fazer filmes para o público infantil, o tom lúdico de sua última obra cinematográfica é capaz de encantar tanto adultos quanto crianças com suas fábulas ilusoriamente inocentes e cores vibrantes. Os Contos da Noite propicia um contato simultâneo entre nossas reflexões mais profundas e nosso lado pueril sonhador. Uma animação que merece ser apreciada.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Os Contos da Noite (Les Contes de La Nuit)

França - 2013. 84 minutos.

Direção: Michel Ocelot

Com: Julien Beramis, Marine Griset, Michel Elias e Yves Barsacq.


Nota: 4

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dreileben: Um minuto no escuro

Terceira e última parte da trilogia Dreileben, Um minuto no escuro faz um estudo psicológico do personagem cuja fuga do hospital foi tema de fundo para os outros dois filmes. Neste filme, é possível perceber mais claramente a forte influência da tradição romântica alemã no que se refere à aproximação com a natureza e em enxergá-la tanto como um lugar de perigo quanto como um lugar de inspiração.

Frank Molesch (Stefan Kurt), assassino sexual convicto, é levado por policiais ao hospital de Dreileben para dar o último adeus a sua falecida mãe, quando aproveita a oportunidade para fugir e se esconder nas matas da floresta da Turíngia. Entretanto, o isolamento e o conhecimento de estar sendo caçado de forma incessante pela polícia começam a deixá-lo transtornado e com medo. Quem se aproxima mais da verdade é um detetive que está de licença médica.


Dreileben: Um minuto no escuro centra-se nas investigações do detetive local Marcus Keil (Eberhard Kirchberg), encarregado do caso de Frank Molesch. Baseado no vídeo de segurança que mostra Molesch minutos antes de matar sua derradeira vítima, com o momento crucial perdido e sem possibilidade de recuperação (o título do filme faz alusão a este fato), Keil tenta entender a mente de Molesch para desvendar o crime, mesmo com certas dúvidas ocasionais se ele é realmente o culpado, enquanto a polícia continua a caçá-lo pelas matas. A reconstituição da cena do assassinato armada por Keil lembra a reconstituição feita por Espósito (Ricardo Darín) em O Segredo dos Seus Olhos (Juan José Campanella) para encontrar e prender o assassino Gómez (Javier Godino). Molesch e Keil são espelhos um do outro. Ao longo do filme, pode-se observar como suas experiências como pai, no caso do detetive, e como filho, no caso do assassino, influenciam suas vidas e contribuem para as suas atuais situações.

A história é contada em grande parte do ponto de vista de Molesch, mostrando como conseguiu escapar do hospital, seus primeiros instantes foragido, seu novo estilo nômade na floresta para não ser encontrado, seu encontro com a menina do casal do primeiro filme – Algo melhor do que a morte – na cena em que se conheceu, sua luta para conseguir comida (inclusive roubando sanduíches de turistas), a amizade com uma garotinha que também estava se escondendo na floresta e a sua volta às lembranças do passado em sua antiga casa.


O encontro casual, seguido de uma improvável amizade, entre Molesch e Cleo (Paraschiva Dragus) na floresta é um dos pontos altos do filme. Ele está comendo os sanduíches que afanou dos turistas e ela surge de uma árvore dizendo que também está com fome e pede a Frank que divida sua comida com ela. Ele hesita um pouco, mas acaba dividindo. Cleo, sem saber que Frank é um criminoso molestador, começa a puxar assunto com ele e o ajuda a se proteger dos policiais que estão rondando a floresta junto com ela em seu esconderijo. Inocentemente, ela pensa que eles a estão procurando, e não seu novo amigo Frank. Apesar de seu histórico brutal, Molesch embarca nessa amizade e protege Cleo enquanto estão próximos.

A cena em que Molesch entra em sua antiga casa também merece destaque. É nela que descobrimos que sua vida inteira foi ditada por sua mãe adotiva e autoridades externas. Ele acha documentos antigos, que representam a opressão que sofreu em seu passado, e os queima todos, junto com a cabana que um dia chamou de lar. Tal episódio é o que melhor demonstra o quanto Molesch é uma pessoa traumatizada e mentalmente instável.


Christoph Hochhäusler (A Cidade Abaixo, que também teve sua estreia no Brasil no Festival do Rio deste ano) é o diretor e roteirista da última parte do quebra-cabeças da trilogia Dreileben. O thriller Um minuto no escuro apresenta eficazmente o fascínio de Hochhäusler por situações de risco e comportamento ambíguo, já demonstrado em seus trabalhos anteriores (Caminho do Bosque, 2003, e Low Profile, 2005). Da mesma forma que Dominik Graf na segunda parte Não me siga, Hochhäusler também dá atenção aos detalhes e às expressões das personagens, utilizando suaves e hábeis movimentos de câmera para valorizá-los.

Equiparando-se todas as tramas da trilogia Dreileben, o espectador consegue identificar algumas semelhanças e também diferenças marcantes, concebidas pelas mentes perspicazes do trio de diretores do projeto. A eficiente parceria fílmica entre Christian Petzold, Dominik Graf e Christoph Hochhäusler resultou em três interessantes obras cinematográficas, que dificilmente serão esquecidas quando o assunto forem trilogias de sucesso.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Escola de Berlim

Dreileben: Um minuto no escuro (Dreileben: Eine Minute im Dunkel)

Alemanha - 2011. 90 minutos.

Direção: Christoph Hochhäusler

Com: Stefan Kurt, Eberhard Kirchberg, Holger Doellmann, Paraschiva Dragus, Imogen Kogge e Timo Jacobs.


Nota: 4

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Dreileben: Não me siga

Não me siga é a segunda parte da trilogia Dreileben e também a que mais faz jus ao seu nome, já que a expressão alemã "drei leben" pode ser traduzida como "três vidas" e há um triângulo basilar formado nesta parte da trilogia. Sua trama é norteada pelo passado compartilhado por duas amigas, que agora vem à tona e abala o relacionamento do trio principal na casa. A história deste filme é a mais aleatória entre todas da trilogia, porém é nela que há a conclusão do caso do criminoso foragido, com um importante auxílio de Johanna. Não me siga, inclusive, teve sua sessão exibida por último no Festival do Rio, trocando de lugar com a terceira parte da trilogia Dreileben, justamente por ser o desfecho do mistério da fuga do criminoso.

O criminoso sexual continua vagando pela floresta da Turíngia, região onde vivem Vera e Bruno (Misel Maticevic) e para onde Johanna, psicóloga da polícia e amiga de Vera, foi enviada para ajudar a solucionar dois casos, incluindo o do molestador. Na residência do casal, ela fica hospedada e passa a fazer parte de suas vidas. Um dia, as duas se dão conta de que dez anos antes estiveram em Munique com o mesmo homem, ao mesmo tempo, sem sequer terem se conhecido, antigas lembranças e sentimentos até então esquecidos ressurgem.


Quando Vera (Susanne Wolff) insistiu para que Johanna (Jeanette Hain) ficasse hospedada em sua casa durante o período que estivesse trabalhando com a polícia na região, ela jamais imaginou que um romance mal acabado do passado viesse à tona novamente em sua vida. Muito menos que sua grande amiga também tivesse tido um caso com o homem pelo qual ela foi apaixonada por um bom tempo. Johanna reconheceu uma pequena escultura, que ganhou do tal homem há anos atrás, numa estante de Vera e lhe perguntou se ela o conhecia, obtendo resposta afirmativa. A partir daí, começou uma série de conversas entre as duas para esclarecer tudo o que houve naquela época, deixando de fora o atual marido de Vera, Bruno (Misel Maticevic); pelo menos inicialmente. Vera não conseguiu mais parar de pensar na inesperada coincidência e ficou inquieta, enquanto Johanna e Bruno começaram a se aproximar cada vez mais pela convivência diária.

Dessa vez, quem dirige e roteiriza a segunda parte da trilogia Dreileben é Dominik Graf (Um Amor Além do Muro, 2006). Ele conduz a trama de forma lenta e reflexiva, sempre atentando para os detalhes e focando nas expressões faciais das personagens. Por ser o fechamento do tema central de toda a trilogia, Dreileben: Não me siga tem uma importância significativa para a mesma; uma responsabilidade e tanto para o seu diretor. Este é o único filme onde aparecem todos os personagens mais importantes da trilogia, mesmo que de forma secundária.


Utilizando um recurso análogo ao de Kieslowsk na Triologia das Cores, Graf faz as histórias se entrelaçarem em alguns momentos. Repete-se aqui uma mesma cena que na primeira parte da trilogia – Algo melhor do que a morte –, mas vista de outro ângulo, o da psicóloga da polícia: quando Johannes entra no quarto do hotel que Ana está arrumando, a beija e a joga na cama, sem perceberem que Johanna passa em frente ao dito quarto e os observa por alguns segundos. A diferença é que em cada filme seus personagens principais são o foco da cena supra citada.

Embora Não me siga seja um bom filme e tenha um papel essencial na trilogia, sua produção fica um pouco aquém do seu antecessor, Algo melhor do que a morte. Perde principalmente pelo ritmo, que vai se tornando cansativo ao longo dos 88 minutos. No entanto ganha em conteúdo rico para reflexão durante toda a película. Um inteligente trabalho de Graf.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Escola de Berlim

Dreileben: Não me siga (Dreileben: Komm mir nicht nach)

Alemanha - 2011. 88 minutos.

Direção: Dominik Graf

Com: Jeanette Hain, Lisa Kreuzer, Misel Maticevic, Malou Hain e Susanne Wolff.


Nota: 3

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dreileben: Algo melhor do que a morte

Três diretores de cinema, membros da Escola de Berlim - Christian Petzold, Dominik Graf e Christoph Hochhäusler -, se reúnem para discutir sobre cinema alemão contemporâneo e estéticas cinematográficas atuais. Dois anos depois, surge o projeto coletivo Dreileben, exibido pela primeira vez em Berlim no ano de 2011, que consiste em três histórias individuais em torno do mesmo tema: a fuga de um criminoso sexual. Em comum, os três filmes possuem o lugar onde é desenvolvida a trama, o povo da cidadezinha inventada Dreileben e um caso de polícia envolvendo um criminoso que norteia as três histórias. Os filmes partem de um mesmo princípio, porém os personagens de cada um seguem seus destinos de maneiras diferentes, que podem ou não se convergir em um ponto comum. Cabe ao espectador assistir e tirar suas próprias conclusões acerca das três obras, que possuem suas próprias realidades, distintas entre si.

Dreileben: Algo melhor do que a morte tem como base uma complicada história de amor entre dois jovens – Johannes e Ana. A cidade fictícia Dreileben, situada no meio da floresta da Turíngia, região central da Alemanha, é o cenário não só para o romance juvenil como também para a fuga de um criminoso sexual do hospital onde trabalha Johannes. De forma concomitante, ocorre uma incessante caçada policial e a construção de um ardente romance entre Ana e Johannes.


Johannes (Jacob Matschenz) é um rapaz responsável que desempenha a função de enfermeiro como serviço militar alternativo no hospital da cidade pequena acima citada, recrutado por um amigo da família que é médico-chefe do local, e que sonha em estudar medicina em Los Angeles. Já Ana (Luna Mijovic) é uma refugiada da Bósnia que trabalha como camareira em um hotel da mesma região e sustenta a mãe e o irmão pequeno, mas que não deixa de aproveitar a sua juventude e beleza. Os dois acabam se conhecendo depois que um rapaz agressivo com quem Ana estava saindo faz uma “brincadeira” de mau gosto com ela, seguida de maus tratos, à noite no meio da floresta, onde Johannes estava relaxando nu perto do rio há algumas horas. Sem se deixar ser visto, ele espera o rapaz ir embora de lá junto com seu grupo, pega de volta suas roupas, socorre Ana, a salva do molestador que fugiu (sem saber), leva-a para sua casa e, assim, tem início a conturbada relação do casal protagonista.

Rapidamente, Ana se mostra uma menina desconfiada, mimada, instável e temperamental. Por estar muito apaixonado, Johannes sempre acaba relevando as atitudes desmedidas de sua amada, até ela atingir o seu limite. O que começou com um encontro tão inusitado resultou em um relacionamento excêntrico e sem futuro. De repente, tudo muda entre o casal após uma festa dada pelo médico-chefe, que Ana insiste em ir apesar de Johannes ter um motivo muito forte, até então oculto para sua companheira, para não querer ir.


Christian Petzold, o cineasta mais conhecido da Escola de Berlim, diretor e roteirista dos filmes A Segurança Interna e Yella (que também estrearam no Festival do Rio deste ano), foi o eleito para dirigir e roteirizar a primeira parte da trilogia Dreileben. Não por acaso, Algo melhor do que a morte é o melhor filme desta, pois a aura de mistério e suspense, devido ao molestador estar foragido e rondando os moradores da cidade, se faz presente durante toda a película, simultaneamente ao romance central, mantendo o interesse do espectador do início ao fim. Sem dúvida, Petzold começou o projeto com o pé direito.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Escola de Berlim

Dreileben: Algo melhor do que a morte (Dreileben: Etwas besseres als den Tod)

Alemanha - 2011. 88 minutos.

Direção: Christian Petzold

Com: Jacob Matschenz, Luna Mijovic, Rainer Bock, Vijessna Ferkic e Konstantin Frolov.


Nota: 4

domingo, 17 de novembro de 2013

A Garota das Nove Perucas

Ser diagnosticado com uma doença grave, e talvez terminal, não é nada fácil, ainda mais quando se é jovem e tem-se toda uma vida pela frente. O medo é o primeiro sentimento que pousa, mas é preciso ter esperança, além do amor e apoio de quem se ama, para superar a longa jornada que vem pela frente. Como citou Voltaire: "A esperança é um alimento da nossa alma, ao qual se mistura sempre o veneno do medo". Sempre haverão instantes de tristeza, porém é preciso superá-los sempre para seguir em frente.

Sophie é uma jovem de 21 anos linda, alegre e cheia de planos que descobre estar com um câncer raro. Apesar do choque inicial, ela decide enfrentar a doença de cabeça erguida, sem se privar de nada o que fazia antes e com novas inseparáveis companheiras: nove perucas de cores e estilos variados, que a fazem se transformar em diferentes pessoas a cada momento e contribuem para que ela passe pela doença de uma maneira muito mais leve e bem humorada.


A Garota das Nove Perucas é um filme baseado na história real de uma menina (Sophie van der Stap) que, pouco tempo após entrar na faculdade, foi diagnosticada com câncer na pleura, um tipo raro da doença no pulmão que possui baixas chances de cura. Por causa do tratamento, os planos de Sophie de dividir um apartamento com sua melhor amiga Annabel (Karoline Teska) tiveram que ser adiados, mas nada foi o bastante para desanimá-la. Ela teve apoio incondicional dos pais, da irmã, dos amigos e ainda engatou um relacionamento com Rob (David Rott). No hospital, construiu amizade com um simpático enfermeiro – Bastian -, que a ajudava em suas escapadas, e com outra interna já em fase terminal chamada Chantal (Jasmin Gerat).

Logo que seu cabelo começou a cair e sua auto-estima a diminuir, surgiram Stella, Daisy, Sue, Blondie, Platina, Uma, Pam, Lydia e Bebé – suas nove personalidades inéditas – e um blog pessoal, onde Sophie passou a escrever todo o seu cotidiano das 54 semanas de quimioterapia e seus sentimentos – os altos e baixos – durante o tratamento, levando mensagens de luta e esperança a pessoas que estavam passando pela mesma situação. Tal blog foi tão importante em sua vida que ela foi convidada por uma importante revista a dar uma entrevista e ainda lhe rendeu um livro, na vida real, que já foi traduzido para 18 idiomas.


Heute bin ich blond  (no original) não foi o primeiro filme a tratar do assunto de forma delicada e realista. É possível estabelecer paralelos entre Sophie e as personagens Annabel (Mia Wasikowska) do filme Inquietos, dirigido por Gus Van Sant (Milk - A Voz da Igualdade), e Marley Corbett (Kate Hudson) do filme Pronta Para Amar, dirigido por Nicole Kassell (O Lenhador). A primeira é uma adolescente com uma doença terminal que, mesmo sabendo que tem pouco tempo de vida, não perde em nenhum momento a sua alegria de viver e inicia um namoro com Enoch, que entra de cabeça na relação e finalmente amadurece. Já a segunda é uma mulher que se descobre com um câncer terminal, fica sem esperanças, mas tenta transparecer aos que a cercam que está lidando bem com as circunstâncias. Quando o charmoso Dr. Julian Goldstein (Gael García Bernal) entra em sua vida, depois de certa hesitação da parte de Marley, ela começa a viver e enxergar seus últimos meses de vida por um lado bem mais positivo. Embora o final de Sophie tenha sido mais feliz que o das outras, as três continuaram seguindo suas vidas da mesma maneira depois do prognóstico médico negativo, mantiveram-se contentes em relação à vida e experimentaram o amor em meio a uma ingrata realidade.

Marc Rothemund, também diretor do longa Uma Mulher Contra Hitler (indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e ao Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2006, e vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Berlim, além de outros dezoito prêmios em diversos festivais internacionais), conseguiu realizar um trabalho competente e transmitir a emoção necessária em todas as cenas, de modo a ressaltar o espírito positivo de superação que a história deseja propagar. Mesmo quem nunca passou por situação semelhante consegue se identificar e se emocionar com a trajetória da personagem principal, muito bem interpretada pela talentosa estreante no cinema Lisa Tomaschewsky. A trama intercala-se entre drama e comédia de forma equilibrada e genuína, e o ritmo se mantém constante durante todo o filme. O roteiro, assinado por Kati Eyssen, compôs uma bela parceria com Rothemund, que resultou em uma película que merece ser vista. A Garota das Nove Perucas não veio para passar despercebida.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Foco Alemanha

A Garota das Nove Perucas (Heute bin ich blond)

Alemanha / Bélgica - 2013. 117 minutos.

Direção: Marc Rothemund

Com: Lisa Tomaschewsky, Karoline Teska e David Rott.


Nota: 4

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Tom, o Garoto Malandro

Uma professora leva um grupo de crianças de 5 anos passa passear na floresta e desmaia após comer inadvertidamente uma frutinha silvestre, deixando seus alunos à própria sorte. Ao tentarem encontrar o caminho de volta para casa, dão de cara com Tom, um garoto de 14 anos que dorme em uma árvore velha. Fazem, então, um trato: quando tudo o que lhes foi ensinado na escola fosse desaprendido e o carro de Tom fosse consertado, ele os ajudaria a encontrar o caminho de casa. O problema é que Tom trocou o conserto do carro por uma das crianças como refeição ao Lobo.


Pouco tempo depois de fazer a troca com o Lobo, Tom se arrependeu e contou às crianças, que ficaram espantadas, mas bolaram um plano junto com ele para se livrar do temido Lobo. No meio do caminho, eles reencontram a professora sem memória e vivendo tão bem adaptada à floresta que parecia a Jane do Tarzan.  Tom e Lobo ficam encantados com a beleza e espontaneidade da professora. Ela leva todos até a sua casa incrível (sim, a professora desmemoriada construiu uma casa linda e criativa no meio do nada!) e pede para que seus alunos lhe ensinem coisas que não sabia mais devido à perda de memória. Nesse meio tempo, o Lobo decide que quer se casar com ela em troca de não comer o Pequeno Paul, uma das crianças do grupo. Ela acaba aceitando a proposta, mas algumas reviravoltas na trama fazem com que o Lobo não tenho o seu desejado final feliz.

Tom, o Garoto Malandro se mostra um mix de Mogli, O Menino Lobo com Chapeuzinho Vermelho. Assim como Mogli, Tom também não tem pais e cresceu na floresta, embora não tenha sido criado por animais como Mogli. O Lobo que tanto assusta as crianças é como se fosse o Lobo Mau do conto da Chapeuzinho Vermelho, que é astuto e gosta de comer criancinhas inocentes e Tom, mais tarde, acaba assumindo o papel do Caçador. As crianças e depois a professora são as Capeuzinhos Vermelho da história, porém com um sentido diferente.


No final, o longa-metragem de Manuel Pradal acaba sendo apenas um filme infantil bobinho, excessivamente fantasioso, com muitas cenas deveras irreais e sem muito a oferecer. O que salva um pouco – bem pouco – é a bela fotografia e o carisma das crianças. O que poderia ser uma bela obra infantil francesa como O Pequeno Nicolau ou A Guerra dos Botões não chega nem perto. Uma pena.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Mostra Geração - longas

Tom, o Garoto Malandro (Tom le Cancre)

França - 2012. 78 minutos.

Direção: Manuel Pradal

Com: Stéphanie Crayencourt, Sacha Bourdo, Steve Le Roi e Matys Soboul.


Nota: 2

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pais

O que fazer quando se tem tudo sob controle e da noite para o dia esse controle simplesmente desaparece? É o que o casal de Pais precisa descobrir para que a harmonia de sua casa e seu casamento seja restaurada. Christine e Konrad são um típico casal que vive em Berlim e tem duas lindas filhas, Käthe e Emma. Ela é uma médica anestesista bem sucedida, que trabalha numa clínica e está prestes a ser promovida, e ele é um diretor de teatro fora da ativa que cuida da casa. De repente, Konrad recebe uma proposta para dirigir uma peça e eles decidem contratar uma babá argentina. Ao invés de resolver o problema, acabam ganhando outro: a babá, Isabel, está grávida.


O retrato da família feliz cai por água abaixo com a chegada de Isabel, que manifesta o desejo de abortar o bebê para permanecer na Alemanha, mas ainda tem uma ponta de dúvida, e passa mal constantemente. Para piorar, o hamster Specky morreu e Emma não para de pedir outro. Logo começa o impasse família-carreira entre Konrad e Christine, que nunca tinham passado antes por situação similar. Com isso, o diretor Robert Thalheim levanta a seguinte questão: como conciliar duas carreiras com filhos quando o parceiro que antes não trabalhava resolve fazê-lo? Normalmente, esse “papel” é da mulher, mas Thalheim quebra este paradigma social e inverte os papeis, deixando a história mais interessante.

Com sua nova peça, Konrad precisa se dedicar mais ao trabalho e pede colaboração da esposa, que não dá muita importância e só pensa em sua carreira. Até que o marido cansa e passa a dormir no teatro, deixando toda a responsabilidade de cuidar das crianças e da babá para Christine, que fica sobrecarregada. Por trabalhar muito e ser uma mãe ausente, ela nem sabe por onde começar e encontra grande resistência por parte de suas filhas, principalmente da mais velha, que já tem 10 anos, é mais madura para idade e consegue entender melhor a situação, enfrentando-a constantemente. Agora o casamento, que antes era motivo de inveja de mães de amigas de escola de suas filhas, fica bastante arranhado.



Christine e Konrad encontram-se em uma situação parecida com a de Tom (Steve Martin) e Kate Baker (Bonnie Hunt) em Doze é Demais (do diretor Shawn Levy), porém em menor proporção, já que doze filhos dão muito mais trabalho que apenas dois. Kate sempre viveu para o lar, os filhos e o marido, até que Kate recebe a proposta para publicar o seu livro e fazer uma turnê de lançamento, deixando Tom sozinho para cuidar da numerosa prole. É claro que resultou em muita confusão. Apesar de Pais ser um drama com uma pitada de comédia e Doze é Demais ser uma típica comédia americana, ambos os filmes têm o mesmo objetivo: mostrar o funcionamento interno de uma família em um momento de crise.

Além da excelente direção de Robert Thalheim, a interpretação de Charly Hübner e Christiane Paul como o casal principal é o ponto alto do filme. Pais é uma crônica familiar da sociedade moderna, com todos os benefícios e os problemas que ela carrega. Realista e atual, como deve ser.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Foco Alemanha

Pais (Eltern)

Alemanha - 2012. 100 minutos.

Direção: Robert Thalheim

Com: Clara Lago, Jannis Niewöhner, Charly Hübner, Àlex Brendemühl, Maren Eggert, Paraschiva Dragus e Christiane Paul.


Nota: 4

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os Mortos e Os Vivos

Quando se fala em Nazismo, a primeira imagem que vem à cabeça é o massacre de judeus em campos de concentração alemães, e isso se reflete no cinema. Poucos são os filmes que retratam o lado das famílias alemãs, o sofrimento que também passaram durante da guerra e a cicatriz que deixa até hoje em seus nativos, principalmente os descendentes dos que foram recrutados para a guerra e de nazistas.

Um filme que retrata muito bem a vida da família alemã no período da Segunda Guerra Mundial é O Menino do Pijama Listrado. A família se muda de Berlin para Auschwitz, onde a esposa não sabe tudo o que acontece lá e vira praticamente uma prisioneira junto com seus filhos na casa onde foram alocados. Bruno, o filho de 8 anos, resolve dar uma escapada para explorar o lugar e conhece Shmuel, um menino judeu que está preso no campo de concentração com seus pais, nascendo uma grande amizade secreta. Neste filme, é possível perceber o mal que o ódio, o preconceito e a violência causaram não só aos judeus, como também a uma família alemã, cujo chefe era um importante oficial nazista.


Em Os Mortos e Os Vivos, é mostrado como o Nazismo ainda afeta as famílias alemãs mesmo depois de tanto tempo do fim da guerra. Sita é uma jovem curiosa e alegre que, ao ver uma foto de seu avô com uniforme militar da SS no seu aniversário de 95 anos, começa a investigar o passado negro de sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Ela parte em busca de respostas, indo de Berlim até Viena, Varsóvia e Romênia. A cada novo passo que dá, novas revelações são feitas, deixando-a perdida e perplexa.

Enquanto se depara com evidências chocantes sobre sua família (especialmente de seus avós paternos) que vão contra tudo o que acredita, Sita se envolve e se desilude com um homem, faz amizades e se aproxima mais do pai após a morte do avô. Em sua jornada, ela vai da tristeza à euforia, da decepção à obstinação, amadurece e se redescobre como uma mulher sensível e forte. Na película Uma Vida Iluminada, o personagem Jonathan (Elijah Wood) sai em busca de verdades sobre seu avô na Segunda Guerra Mundial. Ele é um judeu americano que quer encontrar a mulher que salvou seu avô durante a ocupação nazista na Ucrânia, enquanto Sita sai à procura de possíveis maldades que seu avô tenha feito durante a guerra. Assim como Sita, a jornada ucraniana de Jonathan torna-se um meio de autodescoberta, de perda de medos e também de novas amizades. Jonathan e Sita possuem missões idênticas, porem estão em lados opostos. Uma interessante coincidência paradoxal.


Em seu 13º longa-metragem, Barbara Albert revela o outro lado da história nazista e mostra que enfrentar a verdade, por mais dura que seja, é sempre melhor do que viver numa mentira. A diretora ainda coloca em pauta a discussão sobre julgamentos errados que fazemos uns dos outros e o instinto de sobrevivência humano. O resultado é um filme forte e delicado, feito para refletir sobre questões importantes que até os dias atuais são delicadas para a Alemanha.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Foco Alemanha

Os Mortos e Os Vivos (Die Lebenden)

Alemanha / Polônia / Áustria - 2012. 100 minutos.

Direção: Barbara Albert

Com: Anna Fischer, Hanns Schuschnig, Itay Tiran, Daniela Sea e August Zirner.


Nota: 4

domingo, 10 de novembro de 2013

Mãe, Eu Te Amo

“Mentira tem perna curta” e “A verdade sempre vem à tona”, dizem os jargões populares. Pinóquio foi criado para confirmar tais asserções: sempre que mente, seu nariz cresce e logo o denuncia. Com meninos de verdade, embora seus narizes não cresçam, não é diferente, pois não é possível manter uma mentira por muito tempo sem aguentar as consequências.

Raimonds é um garoto de 12 anos que mora em um bom apartamento com a mãe, uma médica que trabalha muito e dá constantes plantões noturnos, dando-lhe pouquíssima atenção e deixando-lhe sozinho a maior parte do tempo. Ele passa o tempo com seu melhor amigo Peteris e toca saxofone na banda da escola. Ao fazer uma brincadeira de mau gosto com uma garota mais velha durante um ensaio, mais uma advertência é adicionada à sua coleção. Para escapar de levar uma bronca ao dar o bilhete para sua mãe assinar, Raimonds começa uma incontrolável rede de mentiras, cujas consequências o farão correr perigo e colocarão seu melhor amigo numa situação embaraçosa com a polícia.


Histórias como esta de crianças inconsequentes não são novidade no cinema. Em Babel, os irmãos Ahmed (Said Tarchani) e Youssef (Boubker At El Caid), ao apostarem quem maneja melhor o rifle dado por seu pai, acabam ferindo gravemente a turista Susan (Cate Blanchett) dentro de um ônibus de turismo no meio de uma região montanhosa do Marrocos, deixando seu marido Richard (Brad Pitt) desesperado pela demora no atendimento médico. Os meninos não contaram para ninguém sobre o crime que cometeram, até que a polícia começou a procurar suspeitos de terrorismo e se viram obrigados a contar para seu pai. Mesmo assim, culminou em tragédias que afetaram muito mais pessoas do que imaginavam que poderia, inclusive os filhos do casal americano e a babá mexicana.

Em O Caçador de Pipas, temos uma situação parecida. Amir (Zekeria Ebrahimi) e Hassan (Ahmad Khan Mahmidzada) são melhores amigos que adoram soltar pipa juntos. Após conquistarem uma vitória num torneio, Amir observa uma cena de agressão a Hassan e fica calado, assim como seu amigo, que ficou apático depois do ocorrido. Amir, então, se sente desconfortável com a situação e inventa uma mentira sobre Hassan para que seu pai o mandasse embora de sua casa. O que Amir não imagina é que essa mentira terá consequências graves e que o afetarão mesmo após 20 anos.


Raimonds, Amir, Ahmed e Youssef são crianças inconsequentes que mentem para se proteger da reprovação de seus pais e do julgamento alheio. Todas as mentiras resultam em consequências inimagináveis pelos três meninos, fazendo com que aprendam uma grande lição: não se deve mentir pelo motivo que for.

Jānis Nords deu vida a uma história forte, cheia de tensão e reviravoltas, com uma grande moral por trás, não apenas para crianças mas para todas as idades, e alta qualidade fotográfica. Uma grata surpresa da Letônia.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Mostra Geração - longas

Mãe, Eu Te Amo (Mammu, Es Tevi Milu)

Letônia - 2013. 83 minutos.

Direção: Jānis Nords

Com: Kristofers Konovalovs, Vita Varpina, Indra Brike e Matiss Livcans


Nota: 4

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Michael Haneke - Profissão: Diretor

Dizem que vendo com atenção os filmes podemos conhecer melhor seus diretores; seus pensamentos, suas opiniões, seus traumas, seus medos, seu ego. Será verdade? E como é ser diretor? O que é ser diretor? O que se passa em sua mente ao dirigir um filme? Michael Haneke – Profissão: Diretor é um documentário que busca decifrar a mente nada comum de um dos cineastas mais geniais do cinema mundial: o austríaco Michael Haneke. Começando por Amor, sua mais recente obra, o filme percorre e analise toda a sua filmografia, desde seus primeiros longas-metragens até o premiado A Fita Branca, passando pelos polêmicos A Professora de Piano, Caché e as duas versões de Violência Gratuita. São mostradas entrevistas com atores com quem Haneke já trabalhou, bastidores de filmagens, além de montagens de cenas realizadas pelo diretor Yves Montmayeur.

Há uma unanimidade entre os atores entrevistados: todos admiram muito Haneke, não apenas como diretor, mas também como pessoa. Os motivos são vários: a confiança que ele transmite, seu realismo e competência ao retratar assuntos difíceis, sua honestidade, seu bom humor, simpatia e enorme inteligência. Haneke é direto, tanto com os atores quanto em seus filmes. Só trabalha com assuntos polêmicos e de difícil desmistificação, e de forma radical, a fim de chocar o espectador e fazê-lo refletir. Ele diz que trabalhar com sonhos e torná-los algo “real” em uma película é algo complicado, por isso prefere sempre mostrar a realidade “nua e crua”, ao contrário de David Lynch, que sempre mergulha fundo no mundo dos sonhos. Em contrapartida, Haneke gosta de entrar de cabeça no medo e enfiar o dedo na ferida, assim como Lynch.


Haneke admite ser uma pessoa cheia de medos e que insere muitos deles em seus filmes, assim como experiências pessoais. Em Caché, na cena em que o menino corta a cabeça da galinha, e em A Fita Branca, na cena em que Anna explica sobre a morte a seu irmão, foram inseridas experiências pessoas do diretor. Já Amor e Violência Gratuita têm como base três de seus maiores medos: sentir intensa dor física, ter uma doença grave e envelhecer mal. No entanto, suas obras não possuem traumas de infância, como muitos gostam de especular, pois, no documentário Michael Haneke - Minha Vida, ele diz ter tido uma infância maravilhosa e ser muito mimado por três “mães” – sua mãe, sua avó e sua tia.

Além de ter uma excelente visão, Haneke também tem ouvidos afiados – ele afirma saber quando uma cena saiu errada só de ouvi-la. No documentário Michael Haneke - Minha Vida (2009), da dupla de diretores Felix von Boehm e Gero von Boehm, Haneke declara que não grava várias versões de uma mesma cena quando está filmando, pois já possui em mente o modo ideal de como será a cena. Dessa forma, ele grava apenas uma cena perfeita, exatamente do jeito que imaginou.


Este primeiro documentário (Michael Haneke - Minha Vida) sobre o mestre do cinema Michael Haneke trata mais de sua vida pessoal – sua infância, sua juventude, a relação com a família e o pai que pouco conheceu, como transformou-se em cineasta e o modo como gosta de trabalhar – e de opiniões pessoais, com relatos espontâneos, dos atores com quem já trabalhou, assim como a primeira impressão que causou aos mesmos. Já Michael Haneke – Profissão: Diretor aborda os bastidores de todos os seus longas-metragens, assim como algumas de suas cenas mais marcantes, com a presença dos atores emitindo declarações sobre as filmagens e o modo laboral de Haneke, além, claro, do próprio falando sobre diversos assuntos. De conteúdos iguais aos dois documentários, mas com abordagens diferenciadas, o medo, o mal e alguns trechos de filmes em comum.

O documentário de Yves Montmayeur termina com Amor, que também o introduz. O diretor, amigo antigo de Haneke, conseguiu captar a sua essência de homem e cineasta proficientemente, mostrando ao espectador que Haneke é um ser humano único e age como um maestro numa orquestra, buscando sempre a perfeição em tudo o que faz, principalmente seus incríveis filmes. Um documentário para fãs de Michael Haneke e para admiradores da sétima arte.

*Este texto também foi publicado aqui no Almanaque Virtual.


Festival do Rio 2013 – Mostra Filme Doc

Michael Haneke – Profissão: Diretor (Michael H - Profession: Director)

França / Áustria - 2013. 92 minutos.

Direção: Yves Montmayeur

Com: Michael Haneke, Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Juliette Binoche, Isabelle Huppert, Béatrice Dalle e Susanne Lothar Matthäus.

Nota: 5

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